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[Linha do Sabor / Rampa Pocinho - Moncorvo / Foto Autor desconhecido]

[In 'Gazeta CF Nº 1480' de 1949]


[CP E204 na Estação de Moncorvo/Foto Autor desconhecido]

Esta locomotiva, fabricada pela empresa alemã Henschel & Sohn, fez parte de um lote de dezasseis  locomotivas articuladas de dupla expansão, no sistema Mallet (E201 a E216). Foram encomendadas para a divisão do Minho e Douro dos Caminhos de Ferro do Estado entre 1911 e 1923 e eram consideradas como uma das séries mais potentes na rede portuguesa de Via Estreita.

A CP E204 encontra-se em exposição estática no Ecomuseu de Torredeita e, nesta data, de acordo com notícias e fotos das redes sociais e comunicação social, está vandalizada e ao abandono.
[Foto de José Figueiredo - Nov/2017]


 

 

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Do livro 'Caçador de Locomotivas' de Ricardo Grilo

[Moncorvo em 1987 / Alstom 9022 - Foto de Ricardo Grilo]

[In 'Caçador de Locomotivas' de Ricardo Grilo]


Ricardo Grilo, profissional da comunicação social, com áreas de interesse pela escrita, investigação, fotografia, ... e apaixonado por histórias dos séculos XIX e XX, aviação, caminhos de ferro e automobilismo..., com este livro, na história 'Uma noite em Moncorvo', recorda e ajuda a eternizar como foram os últimos dias da linha do Sabor e refere o seu habitual e último maquinista, Abílio Carvalho de Carviçais, que no dia 1 de Agosto de 1988 conduziu o último comboio com a Alsthom 9006 - 'Espanhola'.


[Pocinho-Moncorvo - Anos 70 / Foto Autor desconhecido]

"Do Pocinho a Duas Igrejas é um longo estirão... que o pobre comboio ofegante da linha do Sabor parecia estender ainda mais, nos seus solavancos de velho cansado que teimava em resistir contra o tempo impedoso. Até Moncorvo, menos de uma dezena de quilómetros,  sempre a subir,  dava a sensação que lhe saíam das entranhas os últimos restos dos pulmões gastos, embrulhados em fumo negro, sufocante. Mas o comboio avançava imponente apesar de tudo, trôpego e pesadão, sempre muito pouca-terra, pouca-terra..."

[In "Flores Amarelas para o Comboio" de Afonso Praça]

 

[Moncorvo 1979 - CP E206]

"... João Caramês foi condenado a dez anos de degredo em possessão de primeira classe, com seis meses de prisão no lugar do exílio. Partiu de ali a seis semanas, em meio de uma força de quatro soldados da Guarda. Ia algemado com o seu companheiro, o velho que incendiara a casa da vizinha. Eram onze horas da manhã - dia de feira - e a praça e as ruas regurgitavam de gente... Com o mento descaído sobre o peito, sem erguer do solo os olhos enevoados mau grado seu, lá foi rua do Cano acima, em passo militar, até à estação. Na sua frente, com o seu deslumbrante traje verde, que a primavera lhe emprestara, erguia-se o Roboredo... João, com um olhar saudoso, disse adeus para sempre à serra querida, tão boa e tão generosa, que lhe dera trabalho e pão... Nova lágrima assomou de manso, rolou pela face melancólica do Caramês. Mas já  a locomotiva - que andara em manobras - tinha de novo engatado. O comandante da força deu ordem para subirem. Entraram numa carruagem-salão de terceira classe, onde os dois presos se sentaram junto da janela. Estridulou um silvo agudo -, e o comboio deslizou nos carris, correu ladeira abaixo.
João, calado, não desfitava os olhos do casario policromo, em cujo centro avultava, com o seu ar de inexpugnável fortaleza, a majestosa igreja matriz. Lá ficava no alto das suas duas colinas, mirando ao largo e ao longe, a vila em que nascera e que tanto amor lhe merecia... lá ficava... indiferente à sorte de um filho que o destino esmagara e que um amor generoso, todo renúncia e sacrifício, tinha lançado na perdição... João continuava a envolver a vila na sua mirada eternecida. Já a distância a fazia mais pequena, dando aos edifícios a aparência de cubos minúsculos, próprios para brinquedos de crianças. Só a igreja se impunha ainda, maciça e alta, monstro de pedra desafiando os séculos. Depois a locomotiva torceu subitamente para a esquerda. A vila deixou de ver-se. E o comboio, coleando e rangendo, atirando para o céu volutas de fumo esbranquiçado, entranhou-se nas arribas do Douro."

[In 'Ares da Minha Serra - A Tragédia de um Coração Simples' de Campos Monteiro]



 

[Estação de Moncorvo - CP E201 / Foto Autor desconhecido]

"... Em 16.XI.1935 uma portaria declara sobrante uma parcela de terreno com área de 360 m2, dentro do recinto da Estação de Torre de Moncorvo, entre os Km 12,25180 e 12,28780 destinada à construção de um celeiro para a Federação Nacional dos Produtores de Trigo (F.N.P.T.) (DG 1935c)."

[In 'A Linha do Vale do Sabor' - Coordenação de Carlos d' Abreu]
 



[Moncorvo CP E215]

Isabel Mateus, uma escritora transmontana das Quintas dos Coriscos, Torre de Moncorvo, radicada no Reino Unido desde 2001, tem já uma vasta obra publicada salientando-se as temáticas sobre o Portugal rural e a diáspora. 
A estória do romance "Anna, A Brasileirinha de S. Paulo" enquadra-se no período da emigração portuguesa para o Brasil durante a Primeira República. Os comboios que começaram oficialmente a circular a 17 de Setembro de 1911 no troço Pocinho-Carviçais, era o meio de transporte para os emigrantes chegarem até ao porto de Leixões e a Isabel fala-nos dessas partidas nos seu livro:

'...Decorria então o ano de 1912... De Torre de Moncorvo saem nesse ano 914 emigrantes para o Brasil, entre os quais o Carlos Alberto e o Manuel Joaquim... o ano de 1912 tinha sido de pouca fartura e a colheita do centeio, em especial, muito fraca, no nordeste. Isto tudo associado ainda a intempéries, provoca a carestia e a "fuga desvairada". Uma miséria!... Afinal, foram os dois irmãos que deixaram a aldeola numa manhã fresca de Outubro. E o macho que o pai, o ti Lanceiro, segurava pela arreata carregou serra acima os parcos haveres que levavam com eles para a viagem... Largou-os, depois o velho, a eles e à tralha na estação de comboios da Vila. De seguida os filhos despediram-se dele... Engalanado com o seu fato novo de sorrubeco, o Manuel Joaquim entrou logo na carruagem mais próxima para arranjar o melhor lugar e acomodar os pertences. Apesar de manifestar um certo sentimento de dor antes deste passo da partida... o ímpeto da libertação continuava a soar-lhe mais alto... Só Carlos Alberto precisou de se demorar um pouco mais, opondo resistência aos escassos minutos do adeus. Mas, apenas teve tempo de dar novo abraço ao progenitor e depois de isso ajeitar o chapéu braguês na cabeça. Este, com lágrimas como punhos na alma... subiu, por sua vez, para a mesma carruagem em que já se havia instalado o irmão. E a recomendação, em voz alta, que desferiu em direção ao assolado pai, e que deixava perplexo para trás, através da janela semiaberta do compartimento, foi abafada pelo silvo da máquina de ferro a deitar fumo... Mesmo sem entender o que o filho dizia, mas que facilmente intuíra...acenou-lhe com a mão e meneou em simultâneo a cabeça em sinal de concordância. O que Carlos Alberto já não pôde descortinar foi o desespero estampado no rosto paterno, porque se dissipou por entre o fumo que a locomotiva, em início de andamento, expelia pela chaminé sobre a via-férrea...'

[In 'Anna, A Brasileirinha de São Paulo' de Isabel Mateus]




[Estação de Moncorvo / Anos 70]

 "... O projecto definitivo e orçamento do 1º lanço do caminho de ferro entre o Pocinho e Torre de Moncorvo, na extensão de 12,240 Km foi aprovado por portaria de 20 de Abril de 1904... A estação de Moncorvo foi projectada pelo condutor de obras públicas Acúrcio Joviniano Pinto, assim como a a Rua dos Combatentes da Grande Guerra, de liagação da Vila à estação... 
Iniciada a construção da linha, a Câmara municipal de Torre de Moncorvo, levantou a questão da melhoria dos acessos da Vila à estação ferroviária, reclamando os comerciantes da Vila, contra os maus acessos à estação, sobretudo para veículos carregados, pelo facto de serem as ruas muito ingremes e o seu calcetamento ser de pedra férrea e escorregadia para os animais de tração e também contra a falta de capacidade de armazenamento das instalações ferroviárias e a falta de recursos humanos e material circulante a ponto de as mercadorias ali ficarem retardadas e expostas ao tempo. 
Continuou a reivindicar melhorias pedindo ao ministro que ordenasse a abertura da avenida projetada para assegurar aacesso fácil ao comboio e que a companhia ferroviária convertesse os comboios de mercadorias, em mistos, nos dias da feira em Torre de Moncorvo e em Carviçais, para facilitar a mobilidade dos tendeiros e feirantes em geral..."

[In 'Ferrovia em Trás-os-Montes' de António Jorge Nunes]



[Linha do Sabor CP E203 / Foto autor desconhecido]

"... Era inverno, mês de Fevereiro do ano de 1955. Mais um inverno rigoroso, fustigado por ventos galegos e um frio gelado de bater o dente. 
A lareira era a companhia mais saborosa das famílias, pois nessa altura ainda não havia aquecedores eléctricos nem electricidade... 
Sem que ninguém o esperasse, por volta das cinco da madrugada bate à porta do Ti António, o descarregador tí Lopes... o ti Lopes começou a gritar:
- Oh! Ti António, Ti António, levante-se que temos um problema na linha.... 
caíu um nevão com mais de dois metros de altura e ao que parece nas trincheiras está mais de 3 metros e temos que ir desobstruir a linha para o comboio passar... 
o ti António, depois de tantos gritos, acabou por acordar e em ceroulas de flanela veio ao postigo, mas não via ninguém, apenas neve...
- Atão como é que eu saio aqui de casa se não vejo um palmo de terra à minha frente e com neve a tapar completamente a entrada da porta?
- Não se preocupe que eu tenho ali na estação umas pás e umas sachas e já venho limpar a entrada da porta para poder sair... 
depois de desobstruir a entrada da casa sairam e foram acordar os demais assentadores e auxiliares.... No total eram 20 homens. 
Foi um nevão como não havia memória naquelas bandas... A parte de cima do "distrito" que ligava Mogadouro ao Variz foi a mais fustigada pela neve. 
Muito a custo, aqueles bravos e valentes assentadores conseguiram com galhardia retirar a neve das trincheiras utilizando uma zorra 
que estava sempre pronta ... na Estação de Mogadouro. 
Com as pás enchiam a zorra de neve e depois iam despejá-la nas partes mais baixas da linha, ribanceira abaixo.... 
Foi um trabalho muito duro, mas o dever daqueles funcionários, sobrepôs-se ao frio, ao vento e a tudo. 
A linha tinha que ficar operacional para o comboio passar..."

[In 'Conversas de Viagens, Contos, Histórias e Poemas' de Elmiro Barbeiro]

 



[Fase final da construção da Ponte do Pocinho]

"...O acto oficial para 'inaugurar solemnemente os trabalhos de construção do 
CF do Pocinho a Miranda e o início dos trabalhos de construção da ponte', 
foi protagonizado pelo ministro conde de Paçô-Vieira que de comboio se deslocou ao local em 15 de Novembro de 1903 ...
A Câmara Municipal de Torre de Moncorvo deliberara por unanimidade em sessão do dia 7 desse mês, 
assistir à inauguração desses trabalhos afim de receber condignamente o ministro 
e nomear uma commissão composta por 7 cavalheiros da Vila, militantes, progressistas e regeneradores, 
'a qual organizará os festejos de regosijo publico que mais se ordenarem 
com tão importante melhoramento para este Concelho e ainda pedir aos habitantes d'esta villa que illuminem 
as suas casas nas noites de 14 e 15 do corrente mes e comparecerem na referida estação no  dia da inauguração'..."

[In 'A Linha do Vale do Sabor'  Coordenação Carlos d'Abreu]


[Estação do Carvalhal / Foto de autor desconhecido - Anos 50]
[Preparação das infraestruturas ferroviárias para a expedição do minério por via férrea]

"A linha do Sabor atravessava a Serra do Reboredo cujo subsolo era rico em jazidas de minério de ferro, reconhecidas e exploradas desde o tempo dos romanos..."
"...Em 1890 grande parte das concessões mineiras passam para a posse do Estado que as coloca em concurso público. São adquiridas pelo Syndicat Franco-Ibérique liderado por Georges Saint-Clair e o Barão de Traversy que iniciaram os estudos para a construção de um caminho de ferro de via reduzida para o transporte do minério....
No Jornal 'O Primeiro de Janeiro'  de 5Mar1898 era notícia: 'Um inginheiro francês tem andado desde o dia 9 de Fevereiro a proceder aos primeiros trabalhos gráficos para o traçado de um caminho de ferro, de via reduzida, que deve ligar aquella Villa (Moncorvo) e o Monte Reboredo com a linha férrea do Douro, e que é destinada ao transporte do minério desse Monte (Carvalhosa) e do Cabeço da Mua..."

[In 'A odisseia do ferro de Moncorvo até à Ferrominas' de Nelson Campos]

 


[Pocinho - Moncorvo]

"...Esta zona tão íngreme, em curva e contracurva, era muito difícil
para as locomotivas a vapor. A rampa era praticamente contínua até
Torre de Moncorvo e, caso perdessem a pressão com um comboio pesado,
era difícil arrancar novamente. Quando isso acontecia recuavam o comboio até uma zona
ligeiramente menos inclinada, para a partir daí ganhar novamente velocidade.
E nesta plena subida, essa zona mais plana existia e situava-se na zona da Gricha, 'apeadeiro' no
meio de nenhures onde os comboios não paravam e que
era usado apenas para este fim 
(também designada de  paragem técnica) ..."

 

[Estação de Moncorvo - CP E201 / Julho 1972]

"... era tal a braveza do sol e a secura dos montes e do plantio, que dava a impressão de que a qualquer momento poderia rebentar um incêndio... 
Em Moncorvo, com carregos e descarregos, a paragem também foi longa. Depois, quando já tudo parecia pronto, desengataram a máquina
que para surpresa geral partiu sem nós, mas retornou por outra linha e foi parar junto do reservatório para meter água... 
A subida puxava, mas do Pocinho até ali eram só doze quilómetros... Entretanto a máquina fora de novo engatada  e retomamos a marcha, lentamente..."

[In 'Ernestina' de J. Rentes de Carvalho]

 [Pocinho - Moncorvo / Foto - arquivo pessoal do maquinista Abílio Carvalho - 'Apita Abílio']

"O acidentado percurso de 12 Km e 280 metros de desnível entre 
Pocinho e Moncorvo foi um dos mais difíceis de vencer em toda a rede ferroviária nacional. 
Ao subir podia observar-se as encostas da margem esquerda do Douro, 
ricas de vinhedos em socalcos e olivais, antes de se embrenhar no mar de amendoeiras que, 
na Primavera constituíam um espetáculo de cor e beleza..."

In "Os Comboios em Portugal - José Ribeiro da Silva"

[Moncorvo - Larinho / Foto - arquivo pessoal do maquinista  Abílio Carvalho  - 'Apita Abílio']