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[Estação de Bruçó 1975 / Foto Autor Desconhecido]

"Viagens pelo passado.
Lembranças, memórias, quando não existia o tempo...
Mas sim a rotina do dia a dia e o balançar da carruagem.
Tempos idos, sem pressas, quando se absorviam alegrias e tristezas,
se contavam histórias, se ouviam fábulas e lendas...
E o comboio decidia o ritmo do tempo...
E das vidas que transportava."

[In 'Conto passos do caminho' de António Feijó]

 

[Estação de Bruçó / Foto Autor  desconhecido] 

Mensageiro de Bragança de 5 de Outubro de 1979
Com o título 'Nordeste Bate o Pé' e ganha uma batalha que parecia perdida, o jornalista Inocêncio Pereira faz uma descrição pormenorizada dos protestos que decorreram ao 
longo da linha do Sabor entre 24 e 28 de Setembro e 1979, em que as populações barricaram estradas, bloquearam a circulação de combóios, tomaram a barragem de Bemposta.

"Tudo começou em Bruçó, no passado dia 24 de Setembro, quando a última automotora procedia à retirada do chefe da estação, tendo sido retida naquela localidade pelas populações, ficando igualmente retidos o chefe da estação, o maquinista e o revisor."

[In' Ferrovia em Trá-os-Montes' de António Jorge Nunes]

[Estação de Bruçó / CP E 203]
 
"À volta da gare de Bruçó estendia-se escasso casario que formava uma pequena comunidade onde toda a gente se conhecia e onde sobreviviam pequenos negócios, criando  cumplicidades e amizades que vieram e partiram com os trilhos ferroviários.
Naquele longínquo Verão, e como de costume, a canícula apertava. Os carris gastos pareciam exalar uma aura ferrosa que ainda aquecia mais o local. O ritmo dos dias corria ronceiro. Como a locomotiva que gemia duas vezes por dia as suas dores de velocidade lenta, literalmente movida a carvão. Ora no sentido do Pocinho, ora no inverso destino de Duas Igrejas. A escassa azáfama quotidiana animava com o bufar dos freios. Significava cargas e descargas. Entradas e saídas. Poucas, porque o lugar não era populoso. Mas, suficientes para alterar o torpor dos poucos circunstantes..." 

Texto de Antero Neto / Queijo Bichado
In 'A linha do Vale do Sabor - Um Caminho-de-Ferro Raiano do Pocinho a Zamora'
Coordenação de Carlos d'Abreu

[Estação de Bruçó 1979 - CP E201]


[Foto autor desconhecido]

"Ano de 1979. Verão quente, pleno mês de Agosto... a desconfiança quase certa do assassinato da Linha do Sabor... 
Por terras de Bruçó...o povo, mesmo andando nos seus afazeres, terra de lavoura de sol a sol, vai-se preparando, fazendo o ajuntamento ao final do dia. 
... prevendo-se um cruzamento de comboios, vapor e automotora, depois de suas entradas, vários carris são levantados, outros acorrentados, evitando já a saída dos ditos comboios da estação...
O povo tomou de assalto a estação..."

[In 'Contos que a vida contou' de António Feijó]

 

[Estação de Bruçó / Foto de António Magalhães] 

"Sinto-me despido...
Pelo tempo,
Alheio a tudo, esquecido ... estou só...
Alimento-me das palavras trazidas pelo vento...
Não tenho aconchego, não tenho ninguém...
Por vezes reparo no movimento de pessoas, nos montes, nas suas eiras, 
trabalho duro, ingrato e também esquecidas...
Tenho visitas de bandos de pássaros, insectos, ou outros animais que se perdem 
e a quem ofereço aconchego...
Sinto a cor das flores, aromas da natureza, música vinda de ninhos, vida deste vale..."

[In 'Conto passos do caminho' de António Feijó]





 

 

[Estação de Bruçó / Foto Autor desconhecido]
Antero Neto é natural da freguesia de Bruçó, concelho de Mogadouro, advogado e também escritor. Tem-se dedicado à investigação nos domínios histórico, antropológico e etnográfico desta zona do Nordeste Transmontano e tem já vasta obra publicada nesses campos do conhecimento.

No seu livro "Bruçó - Da Pré-História ao 25 de Abril", escreve:

"... Ainda a propósito da emigração de Bruçó para o Brasil, deixam-se aqui dois apontamentos curiosos: antes de partir, havia o costume na aldeia de os emigrantes se despedirem casa a casa, pessoa a pessoa, pois a expectativa de regresso era baixa, atendendo à distância  e à morosidade e dificuldade da viagem. Numa pequena notícia do jornal 'República', de 1912, que versava sobre a edificação do caminho de ferro ..., salientava-se a importância da sua construção para facilitar a vida aos candidatos à emigração, que nesta zona eram muitos. De facto, a jornada entre Bruçó e o Porto, antes da existência desta importante infraestrutura não devia ser nada cómoda. Segundo relata Serafim Afonso, já na era do comboio, os que ficavam deslocavam-se em massa à estação para comoventes despedidas, sendo, por vezes, forçados a pagar para poderem entrar até ao cais de embarque, numa prática desumana por parte da CP..."

[NETO, Antero, in "Bruçó - Da Pré-história ao 25 de Abril", Lema d'Origem - Editora, 2021, pág. 215]


[Estação de Bruçó / Foto Werner Hardmeier]

Há 45 anos, exatamente no dia 21 Julho de 1979, esta ME iniciou viagem em Duas Igrejas com o vidro de uma janela da frente partido...  
O Chefe da Estação fez o respectivo registo da ocorrência e entregou-o ao Maquinista Abílio Carvalho, 
que, após os procedimentos necessários à substituição do vidro, o arquivou no 'Baú Apita Abílio'.




 

[Estação de Bruçó - E203]

[Lei 1327 de 25 de Agosto de 1922]

[Linha do Vale do Sabor - Vão prosseguir as obras de construção da linha para além de Carviçais, 
devendo muito brevemente  proceder-se ao assentamento da via até Mogadouro, numa extensão de 43 quilómetros.
Nesse percurso já há anos que se encontram construídas as estações de Freixo de Espada-à-Cinta, Lagoaça e Bruçô.
Oxalá que desta vez não sejam interrompidos os trabalhos desta linha cuja conclusão tanta falta está fazendo
 a parte da região de Trás-os-Montes por ela servida, até Miranda, em que, entre outras riquezas se encontram
 os magníficos mármores de Vimioso quási inexplorados por falta de meios de transporte.]

[Notícia da Gazeta CFN925 de 1de Julho de 1926]
 

[Bruçó - Lagoaça / Foto de Richard Stevens 1976]

[Linha do Sabor - Bruçó 1975 / Foto autor desconhecido]