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[Linha do Sabor / Foto Autor desconhecido]
Caminho de Ferro na literatura portuguesa
Bulhão Pato, não entusiasta dos comboios, escreveu em carta a Alexandre Herculano:
"A poesia respira-se no ar, como a fragância das flores; e a atmosfera dos nossos dias, obscurecida pelo fumo das máquinas a vapor, rouba aos olhos as suaves e encantadoras perspectivas da natureza..."
Alexandre Herculano responde:
"Não, a máquina a vapor é um dom do céu, um instrumento de progresso legítimo, uma fonte de cómodos e gozos para o género humano, como o foram o arado, o navio, a imprensa, para os homens que os viram nascer.
A máquina a vapor leva o agasalho e conforto, a limpeza, a saúde, às choupanas do povo, onde, sem ela, só habitaria por séculos a miséria extrema, com todas as suas dores e agonias..."
[In 'Cem Anos de Caminho de Ferro na Literatura Portuguesa' compilação do Eng Frederico de Quadros Abragão]
Uma viagem pelo curriculum profissional do saudoso 'Apita Abílio' no dia em que se completavam as suas 89 primaveras que, supostamente, estarão a ser festejadas ao som da vibração das cordas de uma guitarra.
- 13.04.1962 - admitido com servente de 3ªclasse na Divisão de Material e Tração no Depósito da Régua - Pocinho;
- 01.07.1966 - promovido a servente de 2ª classe;
- 01.10.1966 - transferido para Contumil;
- 01.07.1967 - nomeado fogueiro de 2ª classe, depois de aprovado em exame
- 01.06.1968 - transferido para o Pocinho;
- 01.07.1970 - promovido a fogueiro de 1ª classe;
- 01.11.1970 - promovido a maquinista de 3ª classe;
- 01.04.1972 - promovido a maquinista de 1ª classe;
- 01.07.1977 - promovido a maquinista técnico;
- 01.05.1979 - promovido a maquinista principal;
- 01.08.1985 - regressa ao posto de Tração de Contumil mas continuou em funções na linha do Sabor e no troço da linha do Douro Barca d'Alva-Pocinho até ao encerramento das mesmas (1.08.1988 e 18.10.1988 respectivamente), onde permaneceu até à data da reforma 07.04.1993.
[Estação de Miranda Duas Igrejas / Foto Autor desconhecido]
Há imagens que tocam as nossas memórias e os nossos sentimentos... Há uns que os vivem e revivem no seu mundo imaginário mas há outros, como a amiga São Feijó, que lhes dão vida através das palavras e, mais uma vez, brinda-nos com um lindo texto repleto de saudade, amor e ternura.
"Hoje, ao contemplar esta foto
E contemplada vezes sem conta,
Vejo um por pôr do sol,
Que ao longe se avistaria,
E imaginei um casal recém-casado,
Abraçado,
O que diria...?
A transbordar a alma
E o coração
De uma grande paixão,
Com emoções verdadeiras,
Promessas sem fronteiras,
A ternura da juventude
Capaz de embriagar
E em sorrisos revelar
O mais puro amor...!
A caminhada
Estava a ser começada
Nesta casinha de sonho
(Por eles estreada)
Na linha do Vale do Sabor.
Foi há mais de oitenta anos...
Mas, a forma de amar,
É intemporal!
E, tão original,
Que não precisamos filmagens
Apenas a mente
Para captar estas imagens!
Ah... e, afinal,
Quem são os personagens?
A jovem Adelina e o Aarão
(O chefe da estação)
Os meus maravilhosos PAIS."
[São Feijó]
"Apita Abílio"
[... - O Abílio era o maquinista natural da terra, que assim cumprimentava a todos, e de uma só vez.]
[In Contos dos Montes Ermos 'O Comboio' de António Sá Gué]
Em Jun/2022 o António Carvalho, "o filho do meio" do Apita Abílio, a residir no Brasil, escreveu:
Muitos anos atrás,
Meu pai rodando por aí.
Hoje já nem lembra!!!
O raio desse Alzheimer,
O desmemorizou!...
Mas não apagou
A história que construiu,
Nem a crença que propagou,
APÍTA ABILIO!!!
Tanto tempo já passou,
Que já virou história!!!
Quanto eu viajei,
Criança,
Nesse trem,
Bem antes
Dessa perda de memória!!!...
Trago ainda comigo
A felicidade expressa
No sorriso de criança!!!...
Os anos passam, mas as recordações ficam,
Até o "Raio" da fornalha,
Essa coisa infernal,
De carvão ardente
Que felizmente
Me proporcionaste.
Nessa altura, confesso,
Me alegraste e me assustaste
APITA ABILIO!!!
Ficou para a história...
E eu passei a minha infância, detestando dizerem isso,
Mas hoje me orgulho Pai!!!
"APITA ABILIO"... é a tua marca PAI!!!
Quem dera voltar amanhã
E te sentir "APITANDO" como há tantos anos atrás...
Quanta vontade
De reestruturar
A SAUDADE!!!
Eu...Minha Irmã...Meu Irmão...
"APITA ABILIO"... e haja coração...
Mas deixa te dizer,
Tudo o que já fui,
Tudo o que hoje sou,
É culpa tua...
Tua e da mãe...
Felizmente culpa vossa!!!
APITA ABILIO!!!
António Carvalho (O filho do meio do Apita Abilio)
[Linha do Sabor - Miranda / Duas Igrejas]
Em 1969 ainda havia quem 'sonhasse' com novas linhas férreas de via estreita.
"A via estreita, ou seja a via em que a bitola é geralmente de 1 m pelo que também se designa pelo nome de via métrica, emprega-se por dois motivos: menor despesa quer na construção quer na exploração, e vencer as dificuldades orogénicas, podendo adaptar-se mais facilmente a regiões de acentuado relevo. Possui os inconvenientes de menor velocidade e obrigar a transbordo nos entroncamentos com a via larga..."
Para a Linha do Sabor, escreveu o seguinte:
...
[In 'Boletim da CP Nº 477' de Mar/1969]
Artigo publicado, mas... com N.R.
... fica a frase do título do famoso livro/filme..."E tudo o vento levou"
[Foto Autor desconhecido]
Fim-dos-tempos
Sobre um relógio de uma estação abandonada, na também extinta linha do Tua, o Miguel Gomes escreveu:
"Vejo horas nos fragmentos das vidas
que se abatem em mim.
Quebro tempos e memórias
nos ponteiros que me viajam,
vendo dias, histórias e arestas
que se soltam do meu olhar cego.
Pauto momentos em indeléveis estalidos,
o tempo não se compadece do relógio,
fugaz e austero lança esquecimento nas mãos
e sonhos de quem no fino frio fiava
os suspiros de quem não chegava.
Mudo, agora,
restam-me apenas horas que não voam,
minutos que anunciavam fremente vapor, escasseiam...
Amparo a solidão da madeira cansada dos bancos
e do uivo gasto do vento, soçobrando à ilusão
de quem me olha sem ver,
ausculto a dimensão dos momentos,
não sou a espera adiantada do início
apenas prenúncio de nome:
fim-dos-tempos"
[In 'Alma Tua']
[Estação de Lagoaça CP E204 - 1976 / Foto de autor desconhecido]
A Gazeta dos Caminhos de Ferrro Nº 935 de 1 de Dezembro de 1926 transcreveu e comentou, com o título 'NOTAS E COMENTÁRIOS', um incidente ocorrido antes da inauguração do troço Carviçais-Lagoaça, que só foi inaugurado a 6 de Julho de 1927.
"No dia 7 de Outubro deu-se na Linha do Sabôr um caso com os seus laivos de pitoresco e de trágico que os diários registaram da seguinte forma:
Os sinos badalavam e o eco do seu badalar ia levando o alarme de quebrada em quebrada, pondo em pé de guerra, com chuços, roçadouros e velhas durindanas de antigos alferes de milicias e capitães-mores reumáticos, o povoléu disposto a bater-se, pela inviolabilidade da sua ignorância... contra o monstro que se aproximava, esfumaceante e faulhento, a apitar o progresso...
E então, entre Lagoaça e Carviçais, deu-se o facto que pôz laivos de tragédia nesta curiosa jornada daqueles povos transmontanos.
Um grupo de individuos de Fornos disparou sobre o comboio...
Como se explica então que os de Lagoaça tenham pretendido lançar fogo a um comboio que lhes levava adubo para as suas terras?..."
[In 'Gazeta CFN 935']
O Antero Neto, um transmontano que se tem dedicado à investigação nos domínio histórico, antropológico e etnográfico do Nordeste, diz, e com razão, que a história da Gazeta está mal contada e que não faz sentido levarem adubo de Lagoaça para Carviçais, provavelmente seriam cereais provenientes do Planalto Mirandês e daí a revolta das populações... mas disse que ia investigar.
[Linha do Sabor / Foto autor desconhecido]
"... Quando cheguei ao apeadeiro (Macieirinha) o comboio não tinha ainda passado, mas não havia de estar longe, porque o seu arfar e o seu ranger ecoavam pelos montes. Como eu estranhasse a solidão do sítio, Amadeu, o Gato, explicou que ali raramente subia ou descia alguém. Se um passageiro se queria apear avisava o revisor na estação antes, se queria subir fazia paragem ao maquinista e ele parava.
- E então o saco do correio? - perguntei eu, desconfiado daquela cumplicidade.
- Já vais ver.
A máquina surgiu de entre os taludes, fazendo tremer o chão, e o Gato ergueu o cajado com o saco pendurado na ponta. Logo a seguir a locomotiva passou num ribombar de engrenagens, duma fresta de um vagão vermelho saiu um braço que apanhou o saco, o Gato baixou o cajado. Tudo tão rápido que, antes de eu poder atentar nas carruagens ou nos passageiros, já o comboio ia longe... Ao mesmo tempo que o Gato sorria orgulhoso do seu engenho, tomou-me um sentimento de pânico. Concerteza me ia culpar de o ter distraído no seu trabalho, pois em parte alguma se via o saco com as cartas para distribuir.
- Esqueceste-te do outro saco!
Ele rebolou os olhos num semblante de agonia, bateu furiosamente umas quantas vezes com o cajado contra os bancos do apeadeiro, e ao ver como aumentava o meu medo rebolou-se de gozo pelo chão.
- O correio vem daqui a nada no comboio do Pocinho, azelha! Cruza com este no Felgar. Pensavas que vinha de cima? Então para que lado fica o Porto? onde é que é Lisboa?
- E as cartas de Bragança? Ou as de Miranda? Como é que cá chegam? - retorqui, contente por ter um argumento imbatível.
Vai tudo para baixo. Para o Pocinho. Lá fazem outra vez os sacos e o correio que é para cá volta para trás...
O comboio do Pocinho anunciou-se com um silvo que nos fez levantar da sombra onde estavamos sentados... e, quando finalmente surgiu no princípio da recta, vimos que começava a perder velocidade na subida.
O Gato encaminhou-se para a ponta do cais, assim que a locomotiva passou vi-o agarrar-se dum salto ao varão da porta do vagão do correio, na janela aberta apareceu um braço com o saco, o Gato agarrou-o e saltou com ele exactamente a tempo de cair sobre a ultima pedra do cais. Um passo adiante e despenhava-se no barranco.
Abriu-se-me a boca com aquele numero de circo. Mais tarde ouvi contar que tinha ganho fama na linha e que muitos passageiros se debruçavam nas janelas para ver as suas cabriolas..."
[In 'A Amante Holandesa' de J. Rentes de Carvalho]
[Moncorvo 1979 - CP E206]
"... João Caramês foi condenado a dez anos de degredo em possessão de primeira classe, com seis meses de prisão no lugar do exílio. Partiu de ali a seis semanas, em meio de uma força de quatro soldados da Guarda. Ia algemado com o seu companheiro, o velho que incendiara a casa da vizinha. Eram onze horas da manhã - dia de feira - e a praça e as ruas regurgitavam de gente... Com o mento descaído sobre o peito, sem erguer do solo os olhos enevoados mau grado seu, lá foi rua do Cano acima, em passo militar, até à estação. Na sua frente, com o seu deslumbrante traje verde, que a primavera lhe emprestara, erguia-se o Roboredo... João, com um olhar saudoso, disse adeus para sempre à serra querida, tão boa e tão generosa, que lhe dera trabalho e pão... Nova lágrima assomou de manso, rolou pela face melancólica do Caramês. Mas já a locomotiva - que andara em manobras - tinha de novo engatado. O comandante da força deu ordem para subirem. Entraram numa carruagem-salão de terceira classe, onde os dois presos se sentaram junto da janela. Estridulou um silvo agudo -, e o comboio deslizou nos carris, correu ladeira abaixo.
João, calado, não desfitava os olhos do casario policromo, em cujo centro avultava, com o seu ar de inexpugnável fortaleza, a majestosa igreja matriz. Lá ficava no alto das suas duas colinas, mirando ao largo e ao longe, a vila em que nascera e que tanto amor lhe merecia... lá ficava... indiferente à sorte de um filho que o destino esmagara e que um amor generoso, todo renúncia e sacrifício, tinha lançado na perdição... João continuava a envolver a vila na sua mirada eternecida. Já a distância a fazia mais pequena, dando aos edifícios a aparência de cubos minúsculos, próprios para brinquedos de crianças. Só a igreja se impunha ainda, maciça e alta, monstro de pedra desafiando os séculos. Depois a locomotiva torceu subitamente para a esquerda. A vila deixou de ver-se. E o comboio, coleando e rangendo, atirando para o céu volutas de fumo esbranquiçado, entranhou-se nas arribas do Douro."
[In 'Ares da Minha Serra - A Tragédia de um Coração Simples' de Campos Monteiro]
[Estação de Carviçais - Ago 2024 / Foto Edite Vaz]
... E a estação era tão bonita!
A amiga São Feijó partilha, mais uma vez, as suas memórias... desta vez, leva-nos docemente, numa viagem pelo tempo da história do país e da história da aldeia de Carviçais e das suas gentes...
À conversa com a avó
- Olá, Avó, ora diz-me, em que ano nasceste?
- Olha, minha neta, foi há tanto tempo... nasci no ano de 1890!
- Ui... então ainda foste governada pelos reis!
- Sim, é verdade, e o meu pai, teu bisavô, era a favor da monarquia, tinha aquelas ideias... ainda teve alguns dissabores quando foi implantada a República mas eu não me metia nisso embora gostasse de ouvir as histórias que ele me contava!
- Nessa altura, como era a vossa vida? Que meios de transporte havia?
- A nossa vida era calma demais, pouco sabíamos do que se passava no resto do mundo, não tínhamos como saber. Havia a Igreja (a nossa é muito bonita e antiga com o adro à volta, o que nem todas têm, foi acabada em 1702 no reinado de D. Pedro) era através do Padre Tavares, do Padre Pimpim e também do Padre Coxo que nós sabíamos algumas notícias... depois o Padre Coxo casou com a Marquinhas que era muito bonita, irmã da Maria do Carmo!
Não havia carros. Os homens iam a cavalo à vila, 20 Km, a tratar de alguns assuntos. Nós, mulheres, não andávamos "escarranchadas" no cavalo por causa das saias compridas, nem era bonito, seríamos logo criticadas! Tínhamos de ir sentadas de lado, o que era muito incómodo, só de burro e em pequenas distâncias. Vivíamos numa ignorância total!
Em Moncorvo havia uma majestosa igreja, já da era dos descobrimentos, mas não conhecíamos...
- Então, em que ano veio para Carviçais o comboio?
- Olha, filha, foi emocionante... há 24 anos que tinha chegado ao Pocinho e à Barca d' Alva, pela Linha do Douro, mas não acreditávamos que chegasse à nossa aldeia. Ainda me lembro do dia... 17 de Setembro de 1911! Estava um dia bonito, andávamos muito entusiasmados e curiosos para vermos com os nossos próprios olhos um comboio. Fomos todos para ao pé da linha e ficámos deslumbrados com a máquina a deitar imenso fumo e as carruagens enormes a deslizarem por uns carris tão estreitos... parecia milagre! O comboio apitava, nós batemos palmas, chorámos, abraçámo-nos... que alegria!
E a estação era tão bonita! Foi um grande desenvolvimento para Carviçais. Nesse ano já estava implantada a República e foi eleito o primeiro presidente, o Dr. Manuel de Arriaga. Houve muitas mudanças: mudaram o hino nacional, a bandeira, a moeda... ainda tenho algumas moedas e a bandeira da monarquia que ficarão para recordação.
Sabes, os reis viviam na opulência. As linhas dos caminhos de ferro tinham, até, carruagens reais, todas forradas a veludo, para a família real passear pelo país. A linha do Sabor não chegou a ter porque acabou a monarquia. Nós vivíamos acomodados no nosso cantinho dependentes do que a terra produzia!
- E as mulheres podiam votar?
- Não, não podiam, a primeira mulher a votar numas eleições foi uma médica chamada Carolina Beatriz Ângelo, até diziam que foi a primeira mulher a realizar uma cirurgia...
- Mas, há pouco, dizias-me que Carviçais se desenvolveu. Em quê?
- No comércio. Veio muita gente de fora a estabelecer-se em Carviçais porque parava aqui o comboio. Abriram casas de comidas e bebidas e também lojas (os sotos, como eram chamados) com produtos alimentícios e outros que vinham pelo comboio. Até peixe fresco o comboio trazia...
- Então as vossas vidas, a partir daí, foram muito mais interessantes!
- Sem dúvida, havia muito movimento na aldeia, pessoas que viajavam, produtos novos que chegavam e já podíamos ir à vila ver a igreja que, nessa época, foi considerada monumento nacional.
- Olha, Avó, gostei muito de ouvir mais esta história que me contaste entre tantas que já te ouvi. Fico deliciada... és uma boa contadora de histórias!
- Sabes, filha, vieram também para cá professores que nos ensinaram a ler, o professor Rodrigues, a professora D. Inês ( até se dizia que a D. Inês era santa)...
E, ainda a respeito do comboio, a tua mãe apaixonou-se por um chefe de estação, o teu pai, casaram no ano de 1940 e foram muito felizes. Eram os dois uns jovens muito bonitos...
Oh, Avó, como eu gosto tanto de ti...
Abraço e obrigada!
Amar-te-ei sempre!!!
[São Feijó]
[Estação de Bruçó / Foto Autor desconhecido]
Antero Neto é natural da freguesia de Bruçó, concelho de Mogadouro, advogado e também escritor. Tem-se dedicado à investigação nos domínios histórico, antropológico e etnográfico desta zona do Nordeste Transmontano e tem já vasta obra publicada nesses campos do conhecimento.
No seu livro "Bruçó - Da Pré-História ao 25 de Abril", escreve:
"... Ainda a propósito da emigração de Bruçó para o Brasil, deixam-se aqui dois apontamentos curiosos: antes de partir, havia o costume na aldeia de os emigrantes se despedirem casa a casa, pessoa a pessoa, pois a expectativa de regresso era baixa, atendendo à distância e à morosidade e dificuldade da viagem. Numa pequena notícia do jornal 'República', de 1912, que versava sobre a edificação do caminho de ferro ..., salientava-se a importância da sua construção para facilitar a vida aos candidatos à emigração, que nesta zona eram muitos. De facto, a jornada entre Bruçó e o Porto, antes da existência desta importante infraestrutura não devia ser nada cómoda. Segundo relata Serafim Afonso, já na era do comboio, os que ficavam deslocavam-se em massa à estação para comoventes despedidas, sendo, por vezes, forçados a pagar para poderem entrar até ao cais de embarque, numa prática desumana por parte da CP..."
[NETO, Antero, in "Bruçó - Da Pré-história ao 25 de Abril", Lema d'Origem - Editora, 2021, pág. 215]
[Estação de Carviçais / Foto Autor desconhecido]
Quando a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses desenvolveu o sistema de captação de água para a estação de Carviçais, foi imposta como condição, pela comunidade e/ou poder local, que só haveria cedência do fornecimento da água se 50% da mesma revertesse a favor da população, devendo ser canalizada para uma fonte a construir na praça, no centro da aldeia. A Companhia dos Caminhos de Ferro responsabilizou-se pelos trabalhos de canalização desde a nascente, na Fonte do Seixo, até à estação e posteriormente até à Fonte da Praça, concluída em 1912, com a colaboração financeira e a mão de obra do povo de Carviçais.
[Moncorvo CP E215]
Isabel Mateus, uma escritora transmontana das Quintas dos Coriscos, Torre de Moncorvo, radicada no Reino Unido desde 2001, tem já uma vasta obra publicada salientando-se as temáticas sobre o Portugal rural e a diáspora.
A estória do romance "Anna, A Brasileirinha de S. Paulo" enquadra-se no período da emigração portuguesa para o Brasil durante a Primeira República. Os comboios que começaram oficialmente a circular a 17 de Setembro de 1911 no troço Pocinho-Carviçais, era o meio de transporte para os emigrantes chegarem até ao porto de Leixões e a Isabel fala-nos dessas partidas nos seu livro:
'...Decorria então o ano de 1912... De Torre de Moncorvo saem nesse ano 914 emigrantes para o Brasil, entre os quais o Carlos Alberto e o Manuel Joaquim... o ano de 1912 tinha sido de pouca fartura e a colheita do centeio, em especial, muito fraca, no nordeste. Isto tudo associado ainda a intempéries, provoca a carestia e a "fuga desvairada". Uma miséria!... Afinal, foram os dois irmãos que deixaram a aldeola numa manhã fresca de Outubro. E o macho que o pai, o ti Lanceiro, segurava pela arreata carregou serra acima os parcos haveres que levavam com eles para a viagem... Largou-os, depois o velho, a eles e à tralha na estação de comboios da Vila. De seguida os filhos despediram-se dele... Engalanado com o seu fato novo de sorrubeco, o Manuel Joaquim entrou logo na carruagem mais próxima para arranjar o melhor lugar e acomodar os pertences. Apesar de manifestar um certo sentimento de dor antes deste passo da partida... o ímpeto da libertação continuava a soar-lhe mais alto... Só Carlos Alberto precisou de se demorar um pouco mais, opondo resistência aos escassos minutos do adeus. Mas, apenas teve tempo de dar novo abraço ao progenitor e depois de isso ajeitar o chapéu braguês na cabeça. Este, com lágrimas como punhos na alma... subiu, por sua vez, para a mesma carruagem em que já se havia instalado o irmão. E a recomendação, em voz alta, que desferiu em direção ao assolado pai, e que deixava perplexo para trás, através da janela semiaberta do compartimento, foi abafada pelo silvo da máquina de ferro a deitar fumo... Mesmo sem entender o que o filho dizia, mas que facilmente intuíra...acenou-lhe com a mão e meneou em simultâneo a cabeça em sinal de concordância. O que Carlos Alberto já não pôde descortinar foi o desespero estampado no rosto paterno, porque se dissipou por entre o fumo que a locomotiva, em início de andamento, expelia pela chaminé sobre a via-férrea...'
[In 'Anna, A Brasileirinha de São Paulo' de Isabel Mateus]
[Aguarela da Estação de Carviçais do já saudoso Francisco Moura]
O Francisco foi um grande amigo de Carviçais, que conheceu pelo casamento
com a também já saudosa e minha grande amiga Maria da Graça Lopo Carvalho.
Em 1971, possivelmente tendo como som de fundo o apito de um comboio na linha do Sabor
a passar em frente ao Colégio de Carviçais, a Graça escreveu esta mensagem no meu livro
'TELESCOLA - Ciclo Preparatório TV - 2º ANO - Língua Portuguesa"
Esta página é para a Graça e para o Francisco, cujas estrelinhas brilham algures lá no Céu de Carviçais
e que o Francisco tão bem pintou na sua aguarela da Estação em 2010, já sem comboios.
[Duas Igrejas / Miranda - Foto de Richard Stevens 1976]
O Eng. Fernando de Sousa, dois anos antes da chegada do comboio a Duas Igrejas, há 88 anos, precisamente em Ago/1936, escreveu:
"Os Caminhos de Ferro da CP em 1935"
"É com tristeza que lemos e analisamos os relatórios com que as empresas de caminho de ferro dão conta, ao presente, da sua gerência anual.
Diminuição do tráfego, quebra de receitas, dificuldades crescentes para ocorrer aos encargos da conservação esmerada das linhas e da sua exploração activa. Impossibilidade quási, de melhorar as instalações, de renovar o material, de construir novos troços.
Vida incerta e atrofiada, em suma, embaraços graves para a solvencia dos encargos financeiros: eis a súmula da situação...
Como administrar em tais condições? Reduzir as despesas a menos que o necessário, e impor sacrifícios ao pessoal, que é tão modestamente remunerado? Prescindir dos melhoramentos necessários, ou contrair novos encagos para obras e aquisição de material...? Aumentar tarifas, quando o publico se queixa, a todo o momento, com ou sem razão, das suas taxas...?
...Dizer às empresas: 'mantenham as linhas em exploração regular e satisfactória, melhorem-nas, ou, se não podem, resignem-se à falencia e ao descalabro da exploração. Abandonem-se as linhas, levantem-se os carris e considere-se o caminho de ferro definitivamente suplantado e vitoriosamente substituido pelo automovel', seria verdadeiro crime de lesa nação..."
[In 'Gazeta dos Caminhos de Ferro Nº 1167, 1168 e 1171' de 1936]
[Foto autor desconhecido]
"Carrego a mágoa de ver o que vejo... Abandono...
Desrespeito por algo que noutros tempos fez mover vidas, várias vidas.
Ficam as marcas desses tempos...
o ferro vandalizado...,
que a doença do tempo vai comendo...
Silêncio da máquina a que o homem um dia deu vida...
E tudo se foi...
Só e somente uma lembrança, uma memória...
Uma página da vida..."
[In 'Conto passos do caminho' de António Feijó]
[Ponte Rodo-Ferroviária do Pocinho em construção / Foto Autor Desconhecido]
A Senhora Dona Ponte
"... a obra mais sonhada durante muitos séculos... bastará referir um documento do nosso rei D. Fernando que, em meio das guerras com Castela, dizia mais ou menos isto: 'é mais importante manter o domínio sobre a Barca do Pocinho e o Castelo de Moncorvo do que sobre as praças e castelos de Chaves, Bragança, Vimioso, Miranda, Mogadouro, Freixo... Se perdermos estas praças podemos novamente passar o rio Douro e reconquistá-las. Se perdermos o domínio sobre a Barca do Pocinho, ainda que aquelas praças todas estejam do nosso lado, acabaremos por perdê-las, mais cedo ou mais tarde, uma vez que as não poderemos socorrer quando forem atacadas pelo inimigo... E isto porque o porto do Pocinho é o chão mais seguro que existe em todo o Douro, desde a nossa cidade do Porto até à cidade fronteiriça de Miranda.'... este (o Pocinho) era o ponto central de todas as comunicações do Nordeste Transmontano com as Beiras e o sul do país..."
[Texto de António Júlio Andrade]
[Estação de Carviçais]
A amiga São Feijó, filha de Aarão Augusto Feijó, Chefe da Estação de Carviçais no período de 1953 a 1957, também recordou o ultimo comboio da linha do Sabor no dia 1 de Agosto de 1988.
As suas palavras escritas com um coração cheio de saudades, fazem-nos viajar de forma mágica
e com muita nostalgia pelo magnífico cenário das estações, no tempo em que o comboio circulava nesta linha, como se de um filme se tratasse.
"Os Filhos DELES"
Os filhos dos ferroviários,
Por motivos vários,
Recordam com emoção
O movimento da estação.
De um filme fomos personagens,
Tinhamos direito a viagens
E o nosso dia a dia
Era repleto de magia!
Na linha do Sabor
Na aldeia de Carviçais
E em outras mais
O comboio trazia alegria
Com tanto barulho que fazia.
Tantas histórias para contar
De viajantes a chegar!
De partidas e despedidas
De lenços a acenar
Até a linha acabar...
De sorrisos e emoções
Que apertavam os corações!
De encontros e surpresas
De prendas e encomendas
Despachadas
E cartas para as namoradas.
O jornal, o saco cheio,
Direcionado ao correio.
O abastecimento de água
Do depósito imponente
Para a máquina a vapor
tudo era feito com perfeição
Pelos funcionários na estação.
O relógio, qual peça decorativa,
(E muito atrativa)
Não podia parar.
Na aldeia, o único meio,
para o povo o seu acertar.
Tinha uma assídua manutenção
Pelo muito prazenteiro,
Sr. Isidro Melo, o relojoeiro,
Que, logo de manhã,
Vinha da estação de Campanhã.
Com atenção permanente,
O condutor da máquina,
O Sr. Abílio Carvalho,
Pessoa muito competente
Como piloto de avião
Com tantas vidas na mão!
O antigo telefone a tocar...
Ainda tenho no ouvido a soar
O som do cavalete
A carimbar o bilhete!
As lanternas a petróleo,
Os jardins,
Os vasos de cimento
Que o jardineiro cuidava com talento
Nas horas de menos movimento.
Os azulejos pintados à mão
Quanto alegravam a estação!
O carregar e descarregar
O comércio,
Os materiais de construção,
O peixe,
Os cestos de polvo curado
e bem acondicionado
Que, pelo Natal,
Nunca mais houve igual!
O apitar da chegada
E da partida
Pelos ares ecoava
E encantava...
Que alegria
Esta azáfama trazia!
Condutores, revisores...
A manutenção dos carris
E das travessas,
Com muita perícia e sabedoria
O grupo de mestres fazia.
Sala de espera e de convívio
Horas certas, sem falhar,
Para o viajante não reclamar.
Entre estes funcionários,
Extraordinários,
Havia colaboração...
Uma família autêntica!
Ainda hoje os filhos
A experienciam e alimentam
Com uma relação idêntica!
[São Feijó]
[Linha do Sabor - o Abandono]
"Cravo Vidas....
Prende-me aqui
de onde partiu a réstea de gentes
humanas,
no calmo vazio da tarde,
enquanto não anoitecem os montes...
prende-me
aqui
no fundo da minha dor...
Cravei vidas,
na imensidão do silência que me mata,
Segurei os carris do teu destino
no quente ventre da trave,
agora tudo parte
sem chegar ao horizonte,
apenas o esquecimento me acompanha
no meu eterno deambular, sem risos que me anoiteçam
sou apenas ferro frio
sem alma,
a despertar."
[In 'Alma Tua' de Miguel Gomes]
[Linha do Sabor / Duas Igrejas - Abílio Carvalho, à data ainda fogueiro, no abastecimento de água]
[... Na estação matava a sede: a torneira mastodôntica, depois de apontada à bocarra superior da caldeira
cilíndrica, vomitava um jacto de água que o depósito, pernalta e cinzentão, guardava.
Depois de matar a sede, um apito estridente fendia o silêncio e espaventava a passarada entretida
a rebuscar nas amoreiras dos lameiros, que voava em bandos assustadiços
e estremunhados como se não tivessem destinos. Quando o apito era mais prolongado, aparecia sempre
alguém a encontrar um significado especial, ....
-Apita, Abílio!... - O Abílio era o maquinista natural da terra, que assim cumprimentava todos e de uma só vez...]
[In Contos dos Montes Ermos 'O Comboio' de António Sá Gué]
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