[Moncorvo 1979 - CP E206]
"... João Caramês foi condenado a dez anos de degredo em possessão de primeira classe, com seis meses de prisão no lugar do exílio. Partiu de ali a seis semanas, em meio de uma força de quatro soldados da Guarda. Ia algemado com o seu companheiro, o velho que incendiara a casa da vizinha. Eram onze horas da manhã - dia de feira - e a praça e as ruas regurgitavam de gente... Com o mento descaído sobre o peito, sem erguer do solo os olhos enevoados mau grado seu, lá foi rua do Cano acima, em passo militar, até à estação. Na sua frente, com o seu deslumbrante traje verde, que a primavera lhe emprestara, erguia-se o Roboredo... João, com um olhar saudoso, disse adeus para sempre à serra querida, tão boa e tão generosa, que lhe dera trabalho e pão... Nova lágrima assomou de manso, rolou pela face melancólica do Caramês. Mas já a locomotiva - que andara em manobras - tinha de novo engatado. O comandante da força deu ordem para subirem. Entraram numa carruagem-salão de terceira classe, onde os dois presos se sentaram junto da janela. Estridulou um silvo agudo -, e o comboio deslizou nos carris, correu ladeira abaixo.
João, calado, não desfitava os olhos do casario policromo, em cujo centro avultava, com o seu ar de inexpugnável fortaleza, a majestosa igreja matriz. Lá ficava no alto das suas duas colinas, mirando ao largo e ao longe, a vila em que nascera e que tanto amor lhe merecia... lá ficava... indiferente à sorte de um filho que o destino esmagara e que um amor generoso, todo renúncia e sacrifício, tinha lançado na perdição... João continuava a envolver a vila na sua mirada eternecida. Já a distância a fazia mais pequena, dando aos edifícios a aparência de cubos minúsculos, próprios para brinquedos de crianças. Só a igreja se impunha ainda, maciça e alta, monstro de pedra desafiando os séculos. Depois a locomotiva torceu subitamente para a esquerda. A vila deixou de ver-se. E o comboio, coleando e rangendo, atirando para o céu volutas de fumo esbranquiçado, entranhou-se nas arribas do Douro."
[In 'Ares da Minha Serra - A Tragédia de um Coração Simples' de Campos Monteiro]