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[CP E204 a sair de Freixo de Espada à Cinta / Foto Autor desconhecido]

Durante a elaboração dos estudos realizados para a Linha do Sabor surgiu a hipótese de traçar um caminho de ferro, que atravessaria a vila com destino até Miranda do Douro. Neste plano, previa-se a construção da estação próxima da zona urbana da vila. Este projeto ficou sem efeito, devido a questões técnicas, aos elevados custos das obras e interesses políticos, que não desejavam explorar esta zona transmontana, apesar das diligências do Câmara Municipal dirigidas ao ministro do Fomento.

[Notícia da Gazeta dos Caminhos de Ferro Nº 575 de 1 de Dezembro de 1911]

Confirmado o traçado da Linha do Sabor, a Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta foi informada que a localização do seu apeadeiro ficaria no ponto mais próximo do caminho de ferro do Vale do Sabor com o centro urbano (diga-se, cerca de 19Km), um local conhecido como Vale dos Ladrões e que foi durante muitos anos recordado por alguns conflitos entre Torre de Moncorvo, Mogadouro e Freixo de Espada à Cinta. 
Uma má notícia para a população que não tinha meios e vias de comunicação para aceder à respetiva paragem.
A inauguração como apeadeiro realizou-se no mesmo dia do segundo troço da Linha do Sabor, no dia 6 de julho de 1927. No ano seguinte, em 26 de Abril de 1928, o Ministério do Comércio e Comunicações eleva a categoria do referido apeadeiro para estação.
Houve alguns projetos que visavam integrar a estação com o município, tendo como principal objetivo a construção do lanço de Freixo de Espada à Cinta à estação dos Caminhos de Ferro. Em Agosto de 1928, a Direcção Geral de Caminhos de Ferro ficou responsável, numa fase preliminar, pela construção desta via, no entanto, o projeto viria a ser adjudicado à J.A.E. 
Da memória descritiva do referido projecto importa salientar e citar o interesse funcional que a estação tinha na época. 

 «Deve produzir o concelho de Freixo na parte a sair por esta estação cerca de 1000 pipas de vinho generoso, 1500 pipas de azeitona para conserva, 900 pipas de azeite, 2.500 arrobas de amendoa, fruta, entre ela saborosissima laranja das arribas, cereal, lã, ortaliça, etc. Não admira portanto quer o gesto da Companhia Nacional quer os pedidos da região. Não sabemos as razões que levaram a projectar o apeadeiro citado e a deixa-lo isolado, sem acesso absolutamente nenhum.»

Em Novembro de 1931, o Conselho Superior de Obras Públicas aprovou o projeto da J.A.E. para o troço entre a vila de Freixo e a sua estação - EN 37 - 2ª (lanço com uma extensão de 14.579,91 metros)

[In 'Pare, Escute e Olhe - Estação Ferroviária de Freixo de Espada à Cinta / Master de Diogo P Azevedo]






[CP E204 - 1976]

"... Não há ninguém que vá à portinhola de uma carruagem que não se emocione com o espetáculo deste fluir constante de aspectos e não compreenda melhor o que são os fugitivos momentos da nossa passagem vertiginosa pelo mundo.
Este monstro de ferro, filho da ciência, de coração titânico, resfolgando chamas, na sua ansiedade de espaço - é religioso..."

[Guerra Junqueiro]


 

[Freixo de Espada à Cinta em 1977 - CP E204 / Foto Autor desconhecido]

"... aquele comboio era mesmo de antigamente, contavam por lá que foi recebido à pedrada como se fosse obra do diabo, há quem diga que a linha ficou quilómetros afastada de algumas povoações em conseqência das hostilidades feitas aos engenheiros que a traçaram, recebidos com manifestações de varapau e foices roçadeiras, talvez com a ameaça de uma escopeta de carregar pela boca mais usada  para caçar lebres ou perdizes no Roboredo ou no Vale de Ladrões. Mas isto são vozes do povo, transmitidas de pais a filhos, vá lá agora saber-se até que ponto corresponde a verdade..."

[In 'Flores Amarelas para o Comboio' de Afonso Praça]
 

 

[Estação de Freixo de Espada à Cinta - CP E210 em Abril 1983/ Foto de Jonh Phillips]

"...Uma estação de caminho de ferro é uma estrutura espacial cujo objectivo primeiro é o transporte de passageiros  e mercadorias... A sua localização deve obedecer às melhores condições de acessibilidade, criando um factor de atractividade do transporte ferroviário. Ora esta premissa nem sempre se verificou na Linha do Sabor, ficando algumas bastante longe das povoações que deviam servir..."
[In 'A linha do Vale do Sabor' - Coordenação Carlos d'Abreu]

A estação de Freixo de Espada à Cinta foi construída num local chamado Vale de Ladrões, com meia dúzia de casas no meio de nada e à distância de 15 quilómetros da vila. Era neste local que, a população de Mazouco, Freixo e quintas em redor, apanhava o comboio para o Pocinho.
Hoje, da antiga estação, restam as ruínas cobertas de silvas e arbustos, uma figueira, cartazes envelhecidos, ecos distantes das Ave Marias cantadas pelo altifalante da igreja de Carviçais e, no céu, por vezes, um milhafre-real em volteios anunciando a proximidade do Planalto Mirandês e do Douro Internacional.


Só o nome da estação, gravado em azulejo, se mantém incólume.
[Fotos de Edite Vaz - Agosto 2024]










...

..., Larinho, Carviçais, Lagoaça, Variz, ...

..., Urrós, Freixo-Espada à Cinta, Mogadouro, ...


[In 'Boletim da CP Nº 393' - Março 1962]


 

[Estação de Freixo de Espada à Cinta]

"Escurece, ou simplemente apaga-se a luz lentamente...
De mais um dia...
Nem uma palavra, um som, uma luz...
Só sombras e um céu negro e estrelado, onde as estrelas se formam
e se colocam nos seus lugares, como se um concerto se preparasse..."

[In ´Conto Passos do Caminho' de António Feijó]

 [Estação de Freixo de Espada à Cinta - 2023 - Foto de JRC]

"Morri aos olhos de quem me deu vida,  à sombra de um carril,  ao som das travessas e passos, calcando cascalho poroso, como o resvalar dos meus sonhos nas agrestes escarpas da ignorância. Desconheço quem me pintou de cor sem cor, de matizes que rimam com ausência, de mãos que já não me alimentam, de almas que não me respiram. Até o tempo se desvanece no pó seco que me traga lentamente.
Até tu me deixas, como recordação, como pedra mais e fuligem menos, na equação do meu abandono."

[In 'Alma Tua' de Miguel Gomes (texto) e Norberto Valério (fotografia)]

[Livro sobre a também extinta e abandonada linha do Tua. Estas palavras encaixam na perfeição
em todos os edifícios da linha do Sabor e de outras linhas extintas, abandonadas e esquecidas no país.]