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[Estação de Carviçais - O maquinista António Augusto Caldeira e o Chefe da Estação ou o Condutor (?) a fazerem uma ligação directa ao cabo da rede telefónica para poderem comunicar com a estação seguinte]
[Fotos gentilmente cedidas pelo neto do maquinista António Augusto Caldeira, Luís Vieira]
A exploração ferroviária assentava já num sistema de
comunicações por fio suportado em postes paralelos à linha férrea ligando as
estações ponto a ponto. No interior das estações encontravam-se os aparelhos
telegráficos e/ou telefones de parede, operados pelo chefe de estação. Esta
rede era essencial para a coordenação da circulação em via única, permitindo a
transmissão de ordens de marcha, avisos de segurança, …
Esta infraestrutura de comunicações também estava sujeita a
avarias provocadas pelas condições climatéricas, interferência de árvores ou
animais e desgaste ou problemas de alimentação no equipamento, … que muitas vezes
eram resolvidas localmente pelo pessoal de exploração e da manutenção.
[Estação de Carviçais, CP E182 / Foto Autor desconhecido]
O Fogueiro
"...Compete-lhe a função de higiene e asseio da locomotiva. Em marcha, compartilha das responsabilidades dos regulamentos de sinalização e vigilância. O seu trabalho é de imensa extenuação fisica... Não pode a função da locomotiva resultar sem que a alta pressão do vapor esteja nas devidas condições de alimentação... O fogueiro - cruel contrasenso - cuida mais da comida a dar ao «cavalo de ferro», do que da que tem que dar a si próprio... À locomotiva não pode faltar, sequer, uma só pá de carvão. Numa simples subida há que duplicar-lhe a comida para melhor puxar. Um «copo» de água não pode faltar-lhe. Quando este lhe falte, queima-se a caldeira; quando o carvão não seja bom e suficiente, ela pára... Não anda e não anda mesmo!...
Um bom fogueiro dá um bom maquinista. Ambos são inseparáveis companheiros; um completa o outro..."
[In 'Memórias dum Ferroviário de Pedro Freitas']
... A maioria do património foi votada ao abandono, a REFER vendeu os carris a um sucateiro,
Manuel Godinho da "face oculta" (processo judicial), que iniciou a remoção pela estação de Duas Igrejas...
O depósito de água da estação de Carviçais foi salvo da remoção para a sucata, pela intervenção do povo da aldeia,
que através da Junta de Freguesia o comprou.
Todos os carris da linha do Sabor foram removidos no ano de 1999, sem que alguém tivesse travado tal atentado patrimonial,
ou melhor dito de "roubo de bens públicos" entregues "a troco de nada".
In 'Ferrovia em Trás-os-Montes' de António Jorge Nunes
[Estação de Carviçais 1933 - Loc MD 404 / CP E164 - Foto Autor desconhecido]
17 de Setembro de 1911 - Abertura à exploração pública do 1º troço da Linha do Sabor entre Pocinho e Carviçais.
A loc MD 404 (Minho e Douro) com ano de fabrico de 1905 pela Henschel & Sohn foi renumerada para CP E164 após a integração na CP. Foi vendida em 1992 à Associação Suiça "La Traction" e restaurada nas oficinas da Deutsche Bahn em Meiningen. Voltou a circular em Setembro de 1999 no cantão do Jura e é usada em comboios históricos/turísticos.
[Linha do Sabor / Foto Autor desconhecido]
"Foram 100 anos de vida curta para o grande motor que rompeu o isolamento do nordeste no final do século passado. Hoje a interioridade continua e do comboio resta apenas uma imensa saudade."
In 'Património Ferroviário ao abandono em Trás-os-Montes'
O comboio, os carris e as travessas desapareceram, restam apenas alguns edifícios em avançado estado de degradação para testemunhar que a Linha do Sabor existiu.
[Carviçais - E206 com manobras de inversão de marcha no triângulo]
[Esquema do triângulo ferroviário]
[... 4/X/1937 uma portaria aprova o processo de expropriação de terreno para a construção de um triângulo de inversão de locomotivas na estação de Carviçais (DG 1937a)...]
[In 'A Linha do Vale do Sabor' Coordenação de Carlos d' Abreu]
... e a Gazeta CFN 1328 de 16 de Abril de 1943 publicou o assentamento do referido triângulo.
[Carviçais - Locomotiva Alsthom 9001 / Foto de Armindo Ferreira]
Em Abril de 1988 a Alsthom 9001, conduzida pelo maquinista Abílio Carvalho, descarrilou próximo da Estação de Carviçais, num local conhecido por 'carrascos do Pinto', devido à falta de manutenção da linha.
Os registos das imagens foram feitos pelo Armindo Ferreira, também ele ferroviário e fez parte da equipa de socorro que se deslocou ao local.
[Foto de Armindo Ferreira]
"Esta locomotiva, da série 9000, fazia parte de um grupo de seis locomotivas diesel-eléctricas usadas (FT-1022 a FT-1027), da marca Alsthom, construídas em 1959 e foram compradas pela CP na década de 70 à empresa que geria o caminho de ferro de Tajuña, perto de Madrid... Chegaram a Portugal pintadas de azul e branco mas foram re-decoradas e pintadas de laranja escuro com riscas brancas diagonais na frente, castanho na cabine e o logotipo da CP em preto nos flancos. Foram renumeradas com os números 9001 a 9006"
[António Joaquim Reininho - Chefe da Estação de Carviçais]
O avô do Rui Reininho, trabalhador da Direcção Douro e Minho dos Caminhos de Ferro do Estado, também passou pela Estação de Carviçais nos anos de 1919 a 1923.
Foto facultada ao meu irmão Rui Carvalho pelo próprio Rui Reininho e hoje, 28 de Fevereiro, dia do seu aniversário, eu tenho o prazer de a partilhar neste blogue.
... E é a pronúncia do Norte
Corre um rio para o mar.
[Estação de Carviçais - Loc. CP E215 em Jun 1985]
À data circulavam apenas os comboios de mercadorias e, na foto, já está bem evidente o estado de degradação da via. O maquinista, primeiro da esquerda, era o Sebastião Elias... Também ele fez a maior parte da sua carreira profissional ao serviço da Linha do Sabor. Apanhei a sua promoção a Fogueiro de 1ª Classe no Boletim da CP Nº 404 de Fevereiro de 1963 e a promoção a Maquinista de 1ª Classe no Boletim da CP Nº 517 de Julho de 1972.
[Estação de Carviçais - Ago 2024 / Foto Edite Vaz]
... E a estação era tão bonita!
A amiga São Feijó partilha, mais uma vez, as suas memórias... desta vez, leva-nos docemente, numa viagem pelo tempo da história do país e da história da aldeia de Carviçais e das suas gentes...
À conversa com a avó
- Olá, Avó, ora diz-me, em que ano nasceste?
- Olha, minha neta, foi há tanto tempo... nasci no ano de 1890!
- Ui... então ainda foste governada pelos reis!
- Sim, é verdade, e o meu pai, teu bisavô, era a favor da monarquia, tinha aquelas ideias... ainda teve alguns dissabores quando foi implantada a República mas eu não me metia nisso embora gostasse de ouvir as histórias que ele me contava!
- Nessa altura, como era a vossa vida? Que meios de transporte havia?
- A nossa vida era calma demais, pouco sabíamos do que se passava no resto do mundo, não tínhamos como saber. Havia a Igreja (a nossa é muito bonita e antiga com o adro à volta, o que nem todas têm, foi acabada em 1702 no reinado de D. Pedro) era através do Padre Tavares, do Padre Pimpim e também do Padre Coxo que nós sabíamos algumas notícias... depois o Padre Coxo casou com a Marquinhas que era muito bonita, irmã da Maria do Carmo!
Não havia carros. Os homens iam a cavalo à vila, 20 Km, a tratar de alguns assuntos. Nós, mulheres, não andávamos "escarranchadas" no cavalo por causa das saias compridas, nem era bonito, seríamos logo criticadas! Tínhamos de ir sentadas de lado, o que era muito incómodo, só de burro e em pequenas distâncias. Vivíamos numa ignorância total!
Em Moncorvo havia uma majestosa igreja, já da era dos descobrimentos, mas não conhecíamos...
- Então, em que ano veio para Carviçais o comboio?
- Olha, filha, foi emocionante... há 24 anos que tinha chegado ao Pocinho e à Barca d' Alva, pela Linha do Douro, mas não acreditávamos que chegasse à nossa aldeia. Ainda me lembro do dia... 17 de Setembro de 1911! Estava um dia bonito, andávamos muito entusiasmados e curiosos para vermos com os nossos próprios olhos um comboio. Fomos todos para ao pé da linha e ficámos deslumbrados com a máquina a deitar imenso fumo e as carruagens enormes a deslizarem por uns carris tão estreitos... parecia milagre! O comboio apitava, nós batemos palmas, chorámos, abraçámo-nos... que alegria!
E a estação era tão bonita! Foi um grande desenvolvimento para Carviçais. Nesse ano já estava implantada a República e foi eleito o primeiro presidente, o Dr. Manuel de Arriaga. Houve muitas mudanças: mudaram o hino nacional, a bandeira, a moeda... ainda tenho algumas moedas e a bandeira da monarquia que ficarão para recordação.
Sabes, os reis viviam na opulência. As linhas dos caminhos de ferro tinham, até, carruagens reais, todas forradas a veludo, para a família real passear pelo país. A linha do Sabor não chegou a ter porque acabou a monarquia. Nós vivíamos acomodados no nosso cantinho dependentes do que a terra produzia!
- E as mulheres podiam votar?
- Não, não podiam, a primeira mulher a votar numas eleições foi uma médica chamada Carolina Beatriz Ângelo, até diziam que foi a primeira mulher a realizar uma cirurgia...
- Mas, há pouco, dizias-me que Carviçais se desenvolveu. Em quê?
- No comércio. Veio muita gente de fora a estabelecer-se em Carviçais porque parava aqui o comboio. Abriram casas de comidas e bebidas e também lojas (os sotos, como eram chamados) com produtos alimentícios e outros que vinham pelo comboio. Até peixe fresco o comboio trazia...
- Então as vossas vidas, a partir daí, foram muito mais interessantes!
- Sem dúvida, havia muito movimento na aldeia, pessoas que viajavam, produtos novos que chegavam e já podíamos ir à vila ver a igreja que, nessa época, foi considerada monumento nacional.
- Olha, Avó, gostei muito de ouvir mais esta história que me contaste entre tantas que já te ouvi. Fico deliciada... és uma boa contadora de histórias!
- Sabes, filha, vieram também para cá professores que nos ensinaram a ler, o professor Rodrigues, a professora D. Inês ( até se dizia que a D. Inês era santa)...
E, ainda a respeito do comboio, a tua mãe apaixonou-se por um chefe de estação, o teu pai, casaram no ano de 1940 e foram muito felizes. Eram os dois uns jovens muito bonitos...
Oh, Avó, como eu gosto tanto de ti...
Abraço e obrigada!
Amar-te-ei sempre!!!
[São Feijó]
[Estação de 'CARVIÇAES' no ano de 1948]
[Foto original do Professor Mateus, o Professor do maquinista Abílio Carvalho
na escola primária, gentilmente cedida pelo seu neto Mateus Ribeiro]
"... O comboio chegou a Carviçais, já no tempo da República, a 17 de Setembro de 1911... A estação localiza-se ao km 33,473 à altitude de 620 metros. Tinha o edifício principal, um armazém de mercadorias, um triângulo para a inversão das locomotivas e um celeiro da Federação Nacional dos Produtores de Trigo (F.N.P.T.)..."
[In "Ferrovia em Trás-os-Montes" de António Jorge Nunes]
A 17 de Setembro de 2024, passados 113 anos, só a morte do que ainda resta parece ganhar vida.
[Fotos de Edite Vaz / Agosto 2024]
Emilio Rivas Calvo, no seu poema 'Evocación' publicado no livro 'Ferrovia em Trás-os-Montes' de António Jorge Nunes, escreveu:
"...Entrañable tren del Sabor
fuistes al cabo de los tiempos,
como una herida abierta,
sangrante de hombres y mujeres,
emigrantes, fugitivos
de los pueblos y aldeas de tu ruta.
Ferrocarril de deseos y esperanzas,
ayer camino de hierro para el hierro,
hoy camino de hierba para nada."
[O Maquinista Abílio Carvalho (à esquerda), o colega e amigo Luís Pereira, à data fogueiro,
mas que também terminou a sua atividade profissional como maquinista e a locomotiva é a CP E201]
[Foto de Ago de 1972 - arquivo pessoal 'Apita Abílio']
Na introdução ao Guia do Maquinista e do Fogueiro de Locomotivas, que o Joaquim Pinto Mendes teve a amabilidade de partilhar, lê-se:
"...Para conduzir uma locomotiva dois homens vão sobre ela, constantemente ocupados e vigilantes. Um deles, desenvolvendo um trabalho fatigante para produzir o fogo criador que nas entranhas de aço da máquina se transforma na potência mecânica; o outro, regulando a marcha do comboio, sempre atento a tudo que se passa na locomotiva e na via, e tendo na mão centenas de vidas confiadas á sua destreza, ao seu sangue frio e ao seu sentimento do dever.
Conduzindo a locomotiva, o maquinista e o fogueiro devem sentir-se orgulhosos da sua profissão. Só o amor que cada um dedica á sua profissão pode dar encanto ao trabalho quotidiano, só ele faz com que se tornem menos penosas as dificuldades, as fadigas, os aborrecimentos a que ninguém se pode subtrair, só ele dá á vida todo o seu valor. Aqueles que consideram o trabalho como uma dolorosa pena que a necessidade lhes impõe, são uns desgraçados, que vivem num pesado e doloroso aborrecimento, e sentem enfraquecer as suas forças físicas e morais..."
Porto—Maio de 1915.
O ENGENHEIRO CHEFE DE TRACÇÃO E OFICINAS
José Vítor Duro Sequeira
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