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[Miranda - Duas Igrejas / Abril 2026]

A estação de Duas Igrejas testemunha hoje o declíneo de uma infraestrutura que outrora 
foi essencial ao desenvolvimento da região, servindo as populações, 
quer na sua mobilidade quer no escoamento dos seus 
produtos agrícolas e no transporte para estes locais de outros bens e 
produtos necessários à comunidade residente.
O edifício conserva ainda os páineis de azulejos da autoria do Gilberto Renda, cujo valor patrimonial e 
qualidade artística são evidentes, mas já com manifestos sinais de degradação.
A vegetação espontânea - silvas e outras ervas daninhas - ocupa o espaço, outrora organizado,
infiltrando-se nas estruturas e acelarando a sua deterioração e ruína. 
Este e outros cenários ao longo da extinta linha do Sabor refletem não apenas 
o abandono físico, mas também a perda de uma memória colectiva 
associada ao caminho de ferro no interior transmontano.
 

[Linha do Sabor (Mogadouro-Duas Igrejas) / Foto José Ribeiro da Silva]

Pelos meandros da história...

"Em 1927, um concurso público concessionou as redes que pertenciam ao Estado (no caso linhas férreas de via estreita, Tâmega, Corgo e Sabor) à CP, que na altura era praticamente controlada pelo governo (pois havia vários anos que o Estado cobria o défice da companhia), embora se mantivesse uma companhia privada para todos os efeitos. Este acordo implicou uma série de direitos e deveres parte a parte, tornando-se a CP responsável pela gestão da maior parte da rede ferroviária nacional. 
Todavia, a CP não tinha verdadeiramente interesse nas operações das linhas de bitola estreita, pelo que subarrendou as linhas do Corgo e do Sabor à Companhia Nacional de Caminhos de Ferro e a linha do Tâmega à recém-formada Companhia dos Caminhos de Ferro do Norte de Portugal (que resultou da fusão das companhias de Guimarães, do Porto à Póvoa e Famalicão)...
Foi debaixo deste contexto organizacional que a rede ferroviária da via estreita cresceu um pouco mais: a linha do Tâmega chegou a Celorico de Bastos em 1932 e a linha do Sabor chegou a Duas Igrejas em 1938...
O estado esperava com esta decisão aumentar a eficácia do serviço prestado pelos caminhos de ferro tanto do ponto de vista operacional como financeiro. Porém, essa esperança não foi concretizada...
No final de 1951 toda a rede, à excepção da linha de Cascais, foi entregue à CP... "

 [Estação de Miranda Duas Igrejas / Foto Autor desconhecido]

Há imagens que tocam as nossas memórias e os nossos sentimentos... Há uns que os vivem e revivem no seu mundo imaginário mas há outros, como a amiga São Feijó, que lhes dão vida através das palavras e, mais uma vez, brinda-nos com um lindo texto repleto de saudade, amor e ternura.

"Hoje, ao contemplar esta foto
E contemplada vezes sem conta,
Vejo um por pôr do sol,
Que ao longe se avistaria,
E imaginei um casal recém-casado,
Abraçado,
O que diria...?
A transbordar a alma
E o coração
De uma grande paixão,
Com emoções verdadeiras,
Promessas sem fronteiras,
A ternura da juventude
Capaz de embriagar
E em sorrisos revelar
O mais puro amor...!
A caminhada
Estava a ser começada
Nesta casinha de sonho
(Por eles estreada)
Na linha do Vale do Sabor.
Foi há mais de oitenta anos...
Mas, a forma de amar,
É intemporal!
E, tão original,
Que não precisamos filmagens
Apenas a mente
Para captar estas imagens!
Ah... e, afinal,
Quem são os personagens?
A jovem Adelina e o Aarão
(O chefe da estação)
Os meus maravilhosos PAIS."

[São Feijó]

[Estação de Duas Igrejas / Foto Autor desconhecido]

"...Após a desativação da Linha do Sabor, a estação de Duas Igrejas, assim como tantas outras situadas ao longo da linha, foi abandonada e caiu em desuso. Apesar do estado de degradação em que muitas das suas infraestruturas se encontram, a estação permanece como um testemunho do papel vital que a ferrovia desempenhou no desenvovimento das áreas rurais do interior de Portugal. A sua arquitectura, embora despojada de elementos monumentais, é emblemática da era de ouro das ferrovias portuguesas, reflectindo a simplicidade, funcionalidade e integração com a paisagem rural que a rodeia. Atualmente ao abandono, o conjunto edificado, representa um ponto de interesse histórico, mas também uma importante fonte de memória colectiva, ao fixar materialmente um tempo em que o caminho de ferro representava o principal meio de ligação entre as comunidades isoladas do Nordeste Transmontano."

[In 'Revista Memória Rural - Texto de António Luis Pereira']
 

[Estação de Duas Igrejas - CP E181 / Foto de Marc Dahlstrom, 1977]
 

 

[Estação de Duas Igrejas-Miranda / Foto Autor desconhecido]

"...Este torreão branco (já com a cor do cimento) desempenhava a função de reservatório de água para abastecimento das locomotivas a vapor. A água era transportada por comboio e depositada neste reservatório. Na sua secção inferior, eram guardadas ferramentas e outros utensílios utilizados nas atividades diárias da estação..."

[In 'Pare, Escute, Olhe–Estação Ferroviária de Duas Igrejas-Miranda' de José Guilherme Fonseca Barata]


[Estação de Duas Igrejas - CP E209 / Foto Autor desconhecido]

"... Viajar era também o tempo de espera, ouvir e contar, desnudarmo-nos numa gargalhada estridente, apagar as horas devagar, 
a passo de tartaruga, à janela do comboio..."

[In 'Pare, Escute, Olhe - texto de Jorge Laiginhas]



 

 

[Estação de Duas Igrejas (supostamente ainda em construção) / Foto autor desconhecido]
 
[Planta de Dominique Platel]

 

[Linha do Sabor - Miranda / Duas Igrejas]

Em 1969 ainda havia quem 'sonhasse' com novas linhas férreas de via estreita.

"A via estreita, ou seja a via em que a bitola é geralmente de 1 m pelo que também se designa pelo nome de via métrica, emprega-se por dois motivos: menor despesa quer na construção quer na exploração,  e vencer as dificuldades orogénicas, podendo adaptar-se mais facilmente a regiões de acentuado relevo. Possui os inconvenientes de menor velocidade e obrigar a transbordo nos entroncamentos com a via larga..."

Para a Linha do Sabor, escreveu o seguinte:

... 

[In 'Boletim da CP Nº 477' de Mar/1969]

Artigo publicado, mas... com N.R.
... fica a frase do título do famoso livro/filme..."E tudo o vento levou"

[Duas Igrejas - CP E206 na placa giratória]
 

 

[Duas Igrejas / Miranda - Foto de Richard Stevens 1976]

O Eng. Fernando de Sousa, dois anos antes da chegada do comboio a Duas Igrejas, há 88 anos, precisamente em Ago/1936, escreveu:

"Os Caminhos de Ferro da CP em 1935"

"É com tristeza que lemos e analisamos os relatórios com que as empresas de caminho de ferro dão conta, ao presente, da sua gerência anual. 
Diminuição do tráfego, quebra de receitas, dificuldades crescentes para ocorrer aos encargos da conservação esmerada das linhas e da sua exploração activa. Impossibilidade quási, de melhorar as instalações, de renovar o material, de construir novos troços.
Vida incerta e atrofiada, em suma, embaraços graves para a solvencia dos encargos financeiros: eis a súmula da situação...
Como administrar em tais condições? Reduzir as despesas a menos que o necessário, e impor sacrifícios ao pessoal, que é tão modestamente remunerado? Prescindir dos melhoramentos necessários, ou contrair novos encagos para obras e aquisição de material...? Aumentar tarifas, quando o publico se queixa, a todo o momento, com ou sem razão, das suas taxas...?
...Dizer às empresas: 'mantenham as linhas em exploração regular e satisfactória, melhorem-nas, ou, se não podem, resignem-se à falencia e ao descalabro da exploração. Abandonem-se as linhas, levantem-se os carris e considere-se o caminho de ferro definitivamente suplantado e vitoriosamente substituido pelo automovel', seria verdadeiro crime de lesa nação..."

[In 'Gazeta dos Caminhos de Ferro Nº 1167, 1168 e 1171' de 1936]

 [Estação Duas Igrejas / Foto Autor Desconhecido]

... agora... o silêncio, o abandono, as ruínas...

[As ruínas da Estação de Duas Igrejas / Foto Autor Desconhecido]

 

[Linha do Sabor / Duas Igrejas - Abílio Carvalho, à data ainda fogueiro, no abastecimento de água]

[... Na estação matava a sede: a torneira mastodôntica, depois de apontada à bocarra superior da caldeira
 cilíndrica, vomitava um jacto de água que o depósito, pernalta e cinzentão, guardava.
Depois de matar a sede, um apito estridente fendia o silêncio e espaventava a passarada entretida
 a rebuscar nas amoreiras dos lameiros, que voava em bandos assustadiços 
e estremunhados como se nãtivessem destinos. Quando o apito era mais prolongado, aparecia sempre 
alguém a encontrar um significado especial, ....
-Apita, Abílio!... - O Abílio era o maquinista natural da terra, que assim cumprimentava todos e de uma só vez...]

[In Contos dos Montes Ermos 'O Comboio' de António Sá Gué]

[Estação de Duas Igrejas - 1974 / Foto de Werner Hardmeier]

... e em 21Nov2006 o maquinista 'Apita Abílio' dizia ao jornalista do jornal Nordeste, '...havia turistas que nos pediam para meter mais carvão à máquina 
para tirarem fotografias ao comboio a deitar fumo negro...' 
Na foto, está o fotógrafo ao lado da E204 e do fumo negro da sua chaminé.

[...Portugal foi, até ao final dos anos 70 do século XX, o paraíso europeu para quem gostava dos comboios a vapor, particularmente 
das linhas de via estreita, a funcionar num sistema "que o progresso esqueceu" com locomotivas a vapor... 
transportando as pessoas e as mercadorias que animavam, nos mais recônditos lugares, 
estações de traça inconfundível e coloridos jardins...]

[In 'A linha do Vale do Sabor' Coordenação Carlos d' Abreu]


Inauguração do último troço da Linha do Sabor, Mogadouro-Duas Igrejas, em 22 de Maio 1938


[Fotos Autor desconhecido / Loc MD 464 posteriormente renomeada para CP E 214]

Na Gazeta dos Caminhos de Ferro, o Eng. Fernando de Souza relevou a inauguração, descreveu a 'odisseia' da construção da linha e referiu também, 
"...Falta apenas construir o troço de Duas Igrejas a Vimioso para ficar concluída a linha tal como foi classificada em 1930 no Plano Geral da Rêde..." , 
mas... ficou apenas no Plano.




Em 1885, e a propósito de inaugurações anteriores, o Guerra Junqueiro escreveu 
"In A Velhice do Padre Eterno"

A obra está completa. A máquina flameja
desenrolando o fumo em ondas pelo ar.
Mas antes de partir mandam chamar a Igreja,
que é preciso que um bispo a venha batizar

...Devem nela existir diabólicos pecados,
porque é feita de cobre e ferro, e estes metais,
saiem da natureza, ímpios, excomungados,
como saímos nós dos ventres maternais!

...Para que o monstro corra em férvido galope,
como um sonho febril, num doido turbilhão,
além do maquinista é necessário o hissope
e muita teologia... além d' algum carvão...


 

[A E206 acabou de chegar a Duas Igrejas e o maquinista, na foto, era Sebastião Elias]



[Após décadas a percorrer km's... o abandono da E206 na estação  da Régua, a primeira na foto]

...mas, por vezes, ainda há histórias com finais felizes e,

A E206 em Pré-Petijean Suíça em 2019
[Franches-Montagnes]

[Video da autoria de Valdemar Rodrigues Pereira e gentilmente cedido pelo próprio]




[Linha do Sabor - A E206 sair de Duas Igrejas - 1983]
 

 

[Estação de Duas Igrejas / Miranda]
[Como se não bastassem os muitos anos que a linha do Sabor demorou a construir, 
em Janeiro de 1928 foi desviada verba desta linha para a construção do ramal de Tomar
 e como consequência ficou na aldeia de Duas Igrejas, à distância de 12Km da cidade fronteiriça de 
Miranda do Douro onde deveria terminar.
O edifício terá sido projetado pelo arquiteto Cottinelli Telmo e os painéis de azulejos, de Gilbert Renda,
 retratam cenas regionais, paisagens locais e aspetos culturais específicos da região.]
[Painel dos Pauliteiros de Miranda.]