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[Estação de Mogadouro / Abril 2026]

A antiga estação de Mogadouro permanece esquecida no tempo. 
Entre janelas partidas e portas que não fecham, o vento percorre os corredores vazios, 
trazendo ecos de um passado ferroviário que resiste apenas na imaginação. 
A estação não morreu - transformou-se. É agora um lugar onde o abandono e a vida selvagem coexistem, 
onde o tempo deixou de ter pressa...

 

[Estação de Mogadouro - Foto Autor desconhecido]

                 A Gazeta Nº1106 de 1934  num artigo, 'O que se fez nos Caminhos de Ferro em Portugal no ano de 1933', refere:

             



[Estação de Mogadouro - CP E201 / Foto Autor desconhecido]

Na estação de Mogadouro, no ínício de 1970, foram construídos Silos para recolha e armazenamento de cereais. A construção de silos em betão armado, como estrutura industrial para armazenamento e conservação de cereais, teve ínicio nos anos de 1900... Agumas estações dispunham de armazéns construídos pela Federação Naciona de Produtores de Trigo (FNPT) que eram  infraestruturas de apoio à campanha de produção de cereais e,  para além de dinamizarem a agricultura do planalto mirandês, garantiam o escoamento da produção para o mercado.
Antes de o comboio chegar a Mogadouro o trigo era levado à estação de Carviçais em carros de bois, ou então vendia-se a negociantes que compravam o cereal diretamente ao lavrador.

[In 'Ferrovia em Trás-os-Montes-Memórias do passado, luta do presente' de António Jorge Nunes]
 

[Guia Oficial dos Caminhos de Ferro de Portugal - Maio de 1948]

[O horário da linha do Sabor desde 16 de Dezembro de 1945]

Salientam-se os comboios efetuados nos dias de feira em Mogadouro (mensais e Gorazes no dia 15Out) e a indicação do serviço de camionagem combinado com o caminho de ferro




 

[Linha do Sabor (Mogadouro-Duas Igrejas) / Foto José Ribeiro da Silva]

Pelos meandros da história...

"Em 1927, um concurso público concessionou as redes que pertenciam ao Estado (no caso linhas férreas de via estreita, Tâmega, Corgo e Sabor) à CP, que na altura era praticamente controlada pelo governo (pois havia vários anos que o Estado cobria o défice da companhia), embora se mantivesse uma companhia privada para todos os efeitos. Este acordo implicou uma série de direitos e deveres parte a parte, tornando-se a CP responsável pela gestão da maior parte da rede ferroviária nacional. 
Todavia, a CP não tinha verdadeiramente interesse nas operações das linhas de bitola estreita, pelo que subarrendou as linhas do Corgo e do Sabor à Companhia Nacional de Caminhos de Ferro e a linha do Tâmega à recém-formada Companhia dos Caminhos de Ferro do Norte de Portugal (que resultou da fusão das companhias de Guimarães, do Porto à Póvoa e Famalicão)...
Foi debaixo deste contexto organizacional que a rede ferroviária da via estreita cresceu um pouco mais: a linha do Tâmega chegou a Celorico de Bastos em 1932 e a linha do Sabor chegou a Duas Igrejas em 1938...
O estado esperava com esta decisão aumentar a eficácia do serviço prestado pelos caminhos de ferro tanto do ponto de vista operacional como financeiro. Porém, essa esperança não foi concretizada...
No final de 1951 toda a rede, à excepção da linha de Cascais, foi entregue à CP... "

[Mogadouro / CP E202 em Outubro de 1983]
 

[Estação de Mogadouro - CP E206]

[Esquema das Mallets E201 a E216 - partilhado por Joaquim Pinto Mendes]




 

[Estação de Mogadouro / Foto Autor desconhecido]

"... A inauguração do lanço Lagoaça e Mogadouro decorreu a 1 de Julho de 1930, na extenção de de 23Km, sob a exploração da Companhia Nacional de Caminhos de Ferro. Nem todas as obras estavam concluídas. Por portaria de 13 de Janeiro de 1932, foi aprovado o projeto e orçamento para a construção de um novo cais descoberto no terreno fronteiro ao edifício da estação... no ano de 1933 foram construídas 3 moradias nesta estação para habitação do pessoal..."

[In 'Ferrovia em Trás-os-Montes' de António Jorge Nunes]



... em Outubro de 2010 o Rui Carvalho, filho mais novo do Apita Abílio, registou o estado de abandono e degradação dos referidos edifícios. 

 

[Estação de Mogadouro em 1988 - Loc Alsthom 9006]
 

[Mogadouro - CP E182 / Foto - arquivo pessoal do maquinista Abílio Carvalho - 'Apita Abílio']

"O GECP (Group d´Etude pour le Chemins de fer de Provence) que opera desde 1980 o «Comboio das Pinhas», comboio histórico que faz o serviço na linha de via métrica Niza-Digne no sudoeste de França celebrou o centenário das suas locomotivas Mallet portuguesas E211 e E182 durante as Jornadas Europeias do Património. Ambas as locomotivas foram construídas pela fábrica alemã Henschel em Cassel no ano de 1923. A primeira foi comprada pela associação GECP diretamente à CP, transportada da Régua em 1986 e a segunda a um colecionador espanhol em Torrent, perto de Valência, em 2020. 
... No cais da estação Puget-Théniers, decorado com bandeiras francesas, portuguesas, espanholas e europeias... foi disponibilizado ao público uma exposição fotográfica e uma conferência sobre a história das locomotivas Mallet Portuguesas. Numa das linhas da estação estava parqueada a E182 que aguarda a avaliação da sua caldeira com vista ao restauro. As caixas de água e o teto da cabine que estavam em falta foram reconstruídos de acordo com o desenho original por alunos de uma escola técnica de Marselha..."


[In 'Bastão Piloto Nº 257 de Abr2024' artigo de José Banaudo]






...

..., Larinho, Carviçais, Lagoaça, Variz, ...

..., Urrós, Freixo-Espada à Cinta, Mogadouro, ...


[In 'Boletim da CP Nº 393' - Março 1962]


 

[Bilheteira da Estação de Mogadouro / Foto Rui Carvalho - Out2010]

"... Abro a porta a custo, que o entulho e o tempo arregaçaram as mangas e ninguém conseguiu reparar... Olho tudo com grande tristeza... Um património vandalizado e esquecido pelo homem. A custo vou caminhando neste espaço vazio, somente vazio, oco e sem história. 
Histórias houve muitas, passadas, animadas e amarguradas também... Outros tempos. Tempos que não voltam... Por momentos fixo-me no pequeno guiché da bilheteira...onde parece que estou a ver...vender bilhetes... para vários destinos... Que saudades..."

[In 'Conto Passos do Caminho' de António Feijó]

 

[A E209 na Estação de Mogadouro]

[...nunca percebi muito bem porque é que esta via que se pretendia estruturante “ignorava” os principais centros urbanos da região que servia (com excepção de Torre de Moncorvo). Repare-se no que se escrevia, a este propósito, em 1914, no jornal “Republica”:“os ultimos trabalhos de campo do Sr. engenheiro Wanzeler que tem andado a fazer a rectificação do estudo do caminho de ferro do Pocinho a Miranda do Douro, empurram este para as povoações raianas da margem do rio, deixando, a grande distância, o centro do concelho de Mogadouro (…)”. “Para tudo isto chamamos a atenção do senhor ministro do Fomento, lembrando-lhe que fazer um caminho de ferro que a ninguém serve, deixando, a 9 quilómetros, a sede dum importantíssimo concelho, é um erro absolutamente imperdoavel, para não dizermos um crime.”
Já na altura alguém, com olhos na cara, alertava para aquela que havia de ser a causa principal da morte da Linha do Sabor...]

[In 'mogadourense.blogspot.com' de Antero Neto]

[Estação de Mogadouro / 2010]

"Nos dois mundos da vida
há portas abertas que se fecham ao olhar,
traços e caminhos das gentes de regresso
e retornos sem voltar.

Olham para mim, a quem invoco
nos meus medos,
a noite que por estrelas troco,
palpitando no resgardo celeste
uns rastos de Sol na minha sombra,
soubesse ao menos o horizonte
a quem te deste.

Abro-me para o destino
e avanço ao som da solidão,
ainda que me anime o ferrolho
tudo em mim parece castigo
quando dragam do meu respirar
o sonho..."

[In 'Alma Tua' de Miguel Gomes]


 

[Linha do Sabor CP E203 / Foto autor desconhecido]

"... Era inverno, mês de Fevereiro do ano de 1955. Mais um inverno rigoroso, fustigado por ventos galegos e um frio gelado de bater o dente. 
A lareira era a companhia mais saborosa das famílias, pois nessa altura ainda não havia aquecedores eléctricos nem electricidade... 
Sem que ninguém o esperasse, por volta das cinco da madrugada bate à porta do Ti António, o descarregador tí Lopes... o ti Lopes começou a gritar:
- Oh! Ti António, Ti António, levante-se que temos um problema na linha.... 
caíu um nevão com mais de dois metros de altura e ao que parece nas trincheiras está mais de 3 metros e temos que ir desobstruir a linha para o comboio passar... 
o ti António, depois de tantos gritos, acabou por acordar e em ceroulas de flanela veio ao postigo, mas não via ninguém, apenas neve...
- Atão como é que eu saio aqui de casa se não vejo um palmo de terra à minha frente e com neve a tapar completamente a entrada da porta?
- Não se preocupe que eu tenho ali na estação umas pás e umas sachas e já venho limpar a entrada da porta para poder sair... 
depois de desobstruir a entrada da casa sairam e foram acordar os demais assentadores e auxiliares.... No total eram 20 homens. 
Foi um nevão como não havia memória naquelas bandas... A parte de cima do "distrito" que ligava Mogadouro ao Variz foi a mais fustigada pela neve. 
Muito a custo, aqueles bravos e valentes assentadores conseguiram com galhardia retirar a neve das trincheiras utilizando uma zorra 
que estava sempre pronta ... na Estação de Mogadouro. 
Com as pás enchiam a zorra de neve e depois iam despejá-la nas partes mais baixas da linha, ribanceira abaixo.... 
Foi um trabalho muito duro, mas o dever daqueles funcionários, sobrepôs-se ao frio, ao vento e a tudo. 
A linha tinha que ficar operacional para o comboio passar..."

[In 'Conversas de Viagens, Contos, Histórias e Poemas' de Elmiro Barbeiro]

 

 

[Estação de Mogadouro / Foto autor desconhecido]

"Silêncio...
E mais silêncio.
De barulho só mesmo o cantar dos pássaros que são a minha companhia...
A melhor companhia, pois com eles entretenho-me a passar as horas 
que o tempo já não tem tempo para mim...
Fui abandonado...
Estou fraco, sem eira nem beira...
Arrancaram-me a vida, levaram-me os entes queridos e agora só...
E também nu.
Não tenho roupa, não tenho abrigo, não tenho nada, nada de nada...
Só mesmo lembranças e histórias...
Ainda me lembro... da multidão que por cá passava, malas e bagagens, animação, vida e correrias...
Por vezes ria de tantos atropelos e gritos, choros e alegrias...
Todo o meu ser se enchia de vida...
Era lindo de se ver...
Sim. Que saudades da balbúrdia...
Agora adormeço tantas vezes que nem me dou conta do tempo...
Só ouço o chilrear dos pássaros...
Nada mais. Estou...
Morto por fora...
E despedaçado por dentro...
Salvem-me..."

[In 'Conto passos do caminho' de António Feijó]


Inauguração do último troço da Linha do Sabor, Mogadouro-Duas Igrejas, em 22 de Maio 1938


[Fotos Autor desconhecido / Loc MD 464 posteriormente renomeada para CP E 214]

Na Gazeta dos Caminhos de Ferro, o Eng. Fernando de Souza relevou a inauguração, descreveu a 'odisseia' da construção da linha e referiu também, 
"...Falta apenas construir o troço de Duas Igrejas a Vimioso para ficar concluída a linha tal como foi classificada em 1930 no Plano Geral da Rêde..." , 
mas... ficou apenas no Plano.




Em 1885, e a propósito de inaugurações anteriores, o Guerra Junqueiro escreveu 
"In A Velhice do Padre Eterno"

A obra está completa. A máquina flameja
desenrolando o fumo em ondas pelo ar.
Mas antes de partir mandam chamar a Igreja,
que é preciso que um bispo a venha batizar

...Devem nela existir diabólicos pecados,
porque é feita de cobre e ferro, e estes metais,
saiem da natureza, ímpios, excomungados,
como saímos nós dos ventres maternais!

...Para que o monstro corra em férvido galope,
como um sonho febril, num doido turbilhão,
além do maquinista é necessário o hissope
e muita teologia... além d' algum carvão...


 

[Estação de Mogadouro]

"Na sequência da política agrícola do Estado Novo, regime ditatorial que vigorou no país de 1933 a 1974, 
foram construídos Silos na estação de Mogadouro para recolha e armazenamento de cereais. 
Antes de existirem, e como a Linha do Sabor só chegou a Mogadouro em 1930, 
o trigo era levado à estação de Carviçais em carros de bois ou então vendia-se a negociantes 
que compravam o cereal diretamente ao lavrador. 
O Planalto Mirandês, dada a grande a extensão de searas, era considerado o Alentejo de Trás-os-Montes."


"O
 Chefe de Estação Manuel Marcelino, colega e amigo do 'Apita Abílio', 
subiu ao alto dos Silos e fez este magnifico registo fotográfico, e atualmente também registo histórico, 
com a fila de tratores e furgonetas que aguardavam a sua vez para a entrega da produção de cereais."


[Silos anexos à estação de caminho de ferro de Mogadouro]

"...estas imponentes e magníficas estruturas edificadas, que outrora tiveram 
um papel fundamental na economia do concelho ... infelizmente, hoje são meras recordações arqueológicas..."

[Foto/texto 'surrupiados' do blogue 'mogadouro (ho mogadoyro)' de Antero Neto]

 [Mogadouro - Anos 70 / Foto autor desconhecido]
[0 que se fez em Portugal  no ano de 1933:
(...) Pelo Serviço de Construção - Linha do Vale do Sabor  - Construção de uma casa com três moradias, 
para habitação do pessoal, na estação de Mogadouro. (...)]

[Notícia Gazeta CFN1106 de 16 de Janeiro 1934]

 

[Linha do Sabor - Mogadouro - Santiago]