[Linha do Sabor CP E203 / Foto autor desconhecido]
"... Era inverno, mês de Fevereiro do ano de 1955. Mais um inverno rigoroso, fustigado por ventos galegos e um frio gelado de bater o dente.
A lareira era a companhia mais saborosa das famílias, pois nessa altura ainda não havia aquecedores eléctricos nem electricidade...
Sem que ninguém o esperasse, por volta das cinco da madrugada bate à porta do Ti António, o descarregador tí Lopes... o ti Lopes começou a gritar:
- Oh! Ti António, Ti António, levante-se que temos um problema na linha....
caíu um nevão com mais de dois metros de altura e ao que parece nas trincheiras está mais de 3 metros e temos que ir desobstruir a linha para o comboio passar...
o ti António, depois de tantos gritos, acabou por acordar e em ceroulas de flanela veio ao postigo, mas não via ninguém, apenas neve...
- Atão como é que eu saio aqui de casa se não vejo um palmo de terra à minha frente e com neve a tapar completamente a entrada da porta?
- Não se preocupe que eu tenho ali na estação umas pás e umas sachas e já venho limpar a entrada da porta para poder sair...
depois de desobstruir a entrada da casa sairam e foram acordar os demais assentadores e auxiliares.... No total eram 20 homens.
Foi um nevão como não havia memória naquelas bandas... A parte de cima do "distrito" que ligava Mogadouro ao Variz foi a mais fustigada pela neve.
Muito a custo, aqueles bravos e valentes assentadores conseguiram com galhardia retirar a neve das trincheiras utilizando uma zorra
que estava sempre pronta ... na Estação de Mogadouro.
Com as pás enchiam a zorra de neve e depois iam despejá-la nas partes mais baixas da linha, ribanceira abaixo....
Foi um trabalho muito duro, mas o dever daqueles funcionários, sobrepôs-se ao frio, ao vento e a tudo.
A linha tinha que ficar operacional para o comboio passar..."
[In 'Conversas de Viagens, Contos, Histórias e Poemas' de Elmiro Barbeiro]