[Estação de Miranda Duas Igrejas / Foto Autor desconhecido]

Há imagens que tocam as nossas memórias e os nossos sentimentos... Há uns que os vivem e revivem no seu mundo imaginário mas há outros, como a amiga São Feijó, que lhes dão vida através das palavras e, mais uma vez, brinda-nos com um lindo texto repleto de saudade, amor e ternura.

"Hoje, ao contemplar esta foto
E contemplada vezes sem conta,
Vejo um por pôr do sol,
Que ao longe se avistaria,
E imaginei um casal recém-casado,
Abraçado,
O que diria...?
A transbordar a alma
E o coração
De uma grande paixão,
Com emoções verdadeiras,
Promessas sem fronteiras,
A ternura da juventude
Capaz de embriagar
E em sorrisos revelar
O mais puro amor...!
A caminhada
Estava a ser começada
Nesta casinha de sonho
(Por eles estreada)
Na linha do Vale do Sabor.
Foi há mais de oitenta anos...
Mas, a forma de amar,
É intemporal!
E, tão original,
Que não precisamos filmagens
Apenas a mente
Para captar estas imagens!
Ah... e, afinal,
Quem são os personagens?
A jovem Adelina e o Aarão
(O chefe da estação)
Os meus maravilhosos PAIS."

[São Feijó]

[Estação do Variz / Foto autor desconhecido]


[Fotos Autores desconhecidos]
A estacão do Variz sem 'vida ferroviária' e actualmente ao abandono.

"Tenho a memória completa das viagens que não escrevi,
um vagão sonhador
sulcando
o vento que não vivi

Pendo no sobressalto meus braços
para que agarrados ao vago
possam suster as nuvens
que ainda afago..."

[In 'Alma Tua' texto de Miguel Gomes]


[Estação do Pocinho em 1974 / Foto Autor desconhecido]

Ano de 1974, a estação do Pocinho em plena actividade com comboios de passageiros para o Porto e Barca d'Alva, este com a locomotiva CP 1429. A CP E201 também já está pronta para traccionar o comboio de passageiros pela linha do Sabor até Duas Igrejas.

 

 Boletim da CP N° 463 de Janeiro de 1968



[Estão sinalizados a amarelo os trabalhadores da linha do Sabor que eu identifiquei]


[Estação de Sendim]

Património azulejar de Gilberto Renda
Gilberto Renda um destacado pintor e ceramista português, nesceu em Seixas, concelho de Caminha, em 1884 e faleceu em Lisboa em 1971.... Ficou conhecido pelos seus trabalhos de azulejaria e é considerado como um dos mais destacados mestres de pintura na Fábrica Sant'Anna em Lisboa...
Na estação de Sendim, os temas centrais dos painéis, retratam maioritariamente paisagens naturais e outros elementos de cariz arquitetónico...

[Fonte da Ponte dos Canos e casa quinhentista]

[Castelo de Algoso]

[Igreja de Malhadas e Capela de Santa Cruz de Caçarelhos]

[Fotos e texto In 'Revista Memória Rural']

[Estação de Carviçais, CP E182 / Foto Autor desconhecido]

O Fogueiro
"...Compete-lhe a função de higiene e asseio da locomotiva. Em marcha, compartilha das responsabilidades dos regulamentos de sinalização e vigilância. O seu trabalho é de imensa extenuação fisica... Não pode a função da locomotiva resultar sem que a alta pressão do vapor esteja nas devidas condições de alimentação... O fogueiro - cruel contrasenso - cuida mais da comida a dar ao «cavalo de ferro», do que da que tem que dar a si próprio... À locomotiva não pode faltar, sequer, uma só pá de carvão. Numa simples subida há que duplicar-lhe a comida para melhor puxar. Um «copo» de água não pode faltar-lhe. Quando este lhe falte, queima-se a caldeira; quando o carvão não seja bom e suficiente, ela pára... Não anda e não anda mesmo!...
Um bom fogueiro dá um bom maquinista. Ambos são inseparáveis companheiros; um completa o outro..."

[In 'Memórias dum Ferroviário de Pedro Freitas']
 


 


[Carta de Condução de Unidades Motoras do Maquinista Abílio César Carvalho emitida em 25/AGO/1971]

 "A presente carta deverá ser apresentada a qualquer agente superior que a solicite e só é válida dentro do prazo fixado pela última inspeção dos Serviços Médicos"

Unidades motoras que o portador está habilitado a conduzir:
Locomotivas
  • A Vapor
  • Diesel, séries 1400 e 1800 (Eng. Elect.) 
  • Diesel ALSTHOM VE 

Automotoras

  • Séries My 300 e MEy 300 (Allan)
  • Diesel, série MYFC 400 e 600 (UDD)
  • Gasolina, séries M 01, M 1, ME 1, ME 21 e MF

Locotractores

  • Série 1000 (Drewry)
  • Série 1050 (Moyses)
  • Série 1150 (Sentinel)
  • Diesel, séries 1550...

Este documento fez parte integrante da carteira dos documentos de identificação do saudoso Apita Abílio até aos seus últimos anos de vida... 
Descobri a dita carteira no primeiro dia do ano 2026 e apesar do seu avançado estado de degradação, partilho-a com carinho.
 

[Mogadouro / CP E202 em Outubro de 1983]
 

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[Estação do Larinho 1963 - CP E209]

[Estação do Larinho - Abandono / Foto Autor desconhecido]




 

"Apita Abílio"


[... - O Abílio era o maquinista natural da terra, que assim cumprimentava a todos, e de uma só vez.]
[In Contos dos Montes Ermos 'O Comboio' de António Sá Gué]

Em Jun/2022 o António Carvalho, "o filho do meio" do Apita Abílio, a residir no Brasil, escreveu:
 
Muitos anos atrás,
Meu pai rodando por aí.
Hoje já nem lembra!!!
O raio desse Alzheimer,
O desmemorizou!...
Mas não apagou
A história que construiu,
Nem a crença que propagou,
APÍTA ABILIO!!!
Tanto tempo já passou,
Que já virou história!!!
Quanto eu viajei,
Criança,
Nesse trem,
Bem antes
Dessa perda de memória!!!...
Trago ainda comigo
A felicidade expressa
No sorriso de criança!!!...
Os anos passam, mas as recordações ficam,
Até o "Raio" da fornalha,
Essa coisa infernal,
De carvão ardente
Que felizmente
Me proporcionaste.
Nessa altura, confesso,
Me alegraste e me assustaste

APITA ABILIO!!!
Ficou para a história...
E eu passei a minha infância, detestando dizerem isso,
Mas hoje me orgulho Pai!!!
"APITA ABILIO"... é a tua marca PAI!!!
Quem dera voltar amanhã
E te sentir "APITANDO" como há tantos anos atrás...

Quanta vontade 
De reestruturar
A SAUDADE!!!
Eu...Minha Irmã...Meu Irmão...
"APITA ABILIO"... e haja coração...

Mas deixa te dizer,
Tudo o que já fui,
Tudo o que hoje sou,
É culpa tua...
Tua e da mãe...
Felizmente culpa vossa!!!

APITA ABILIO!!!

António Carvalho (O filho do meio do Apita Abilio)

 




[Fonte da Aldeia / Foto de Luís Raposo]

"In 'O COMBOIO JÁ NÃO PASSA AQUI...'
Uma viagem fotográfica pela abandonada linha do Sabor"
 

[Estação de Duas Igrejas / Foto Autor desconhecido]

"...Após a desativação da Linha do Sabor, a estação de Duas Igrejas, assim como tantas outras situadas ao longo da linha, foi abandonada e caiu em desuso. Apesar do estado de degradação em que muitas das suas infraestruturas se encontram, a estação permanece como um testemunho do papel vital que a ferrovia desempenhou no desenvovimento das áreas rurais do interior de Portugal. A sua arquitectura, embora despojada de elementos monumentais, é emblemática da era de ouro das ferrovias portuguesas, reflectindo a simplicidade, funcionalidade e integração com a paisagem rural que a rodeia. Atualmente ao abandono, o conjunto edificado, representa um ponto de interesse histórico, mas também uma importante fonte de memória colectiva, ao fixar materialmente um tempo em que o caminho de ferro representava o principal meio de ligação entre as comunidades isoladas do Nordeste Transmontano."

[In 'Revista Memória Rural - Texto de António Luis Pereira']
 

[CP E216 na Ponte do Pocinho / Foto Autor desconhecido]

[In 'Revista Memória Rural']




 

[Estação do Pocinho]

 

[Estação de Bruçó 1975 / Foto Autor Desconhecido]

"Viagens pelo passado.
Lembranças, memórias, quando não existia o tempo...
Mas sim a rotina do dia a dia e o balançar da carruagem.
Tempos idos, sem pressas, quando se absorviam alegrias e tristezas,
se contavam histórias, se ouviam fábulas e lendas...
E o comboio decidia o ritmo do tempo...
E das vidas que transportava."

[In 'Conto passos do caminho' de António Feijó]

 

[Linha do Sabor próximo de Vilar do Rei - 1982]

"...Surge um comboio... Apressa-se para o local imaginário onde parará aquela máquina arfante de ferro forjado fumegante. O silvo característico dos rodados nos carris, um solavanco final, como o suspiro cansado de quem se sabe parar, mas não descansar...
Vai percorrendo a linha..."

[In 'Alma Tua' de Miguel Gomes]
 




[Bilhete utilizado dia 10(?!) de Junho de1970 na Linha do Sabor]

O bilhete

"... São fragmentos que traduzem vida... um rectângulo de papelão. É numerado, tem dizeres impressos e apresenta-se com variadíssimos pequeninos furos; é de aspecto irrequieto e ladino - é o bilhete!

...Oriundo da fábrica de bilhetes... passa pela guilhotina e pelas talas, onde geme a formidáveis apertos. Depois - agradável mudança de cenário! - mãos femininas registam-no... 

«Da repartição... sou enviado à estação, devidamente contado, emaçado e controlado. O bilheteiro encaixa-me em recipiente adaptado e ali fico esperando o passageiro, que não pode meter-se no combóio sem a minha prévia aquisição. Por isso eu sou ambicionado por todo o público!»

[Foto de Eduardo Augusto Oliveira]

«Do cacifo da estação sou tirado para mãos que me libertam da prisão e guardam-me como objecto de muito apreço, logo sinto-me possuído de muito contentamento. 


Mas é efémera toda essa satisfação! Empregados de maus fígados, empunhando tenazes, impiedosamente, matam-me com muitíssimos tiros que me furam assim que o passageiro me exibe como documento de passagem..."


O bilhete... nasce e forma-se para a vida comercial ferroviária, apenas no valor activo de uma viagem, que tanto é de alguns minutos como de algumas horas..."

[In 'Memórias Dum Ferroviário' de Pedro de Freitas]

 

[Estação de Bruçó / Foto Autor  desconhecido] 

Mensageiro de Bragança de 5 de Outubro de 1979
Com o título 'Nordeste Bate o Pé' e ganha uma batalha que parecia perdida, o jornalista Inocêncio Pereira faz uma descrição pormenorizada dos protestos que decorreram ao 
longo da linha do Sabor entre 24 e 28 de Setembro e 1979, em que as populações barricaram estradas, bloquearam a circulação de combóios, tomaram a barragem de Bemposta.

"Tudo começou em Bruçó, no passado dia 24 de Setembro, quando a última automotora procedia à retirada do chefe da estação, tendo sido retida naquela localidade pelas populações, ficando igualmente retidos o chefe da estação, o maquinista e o revisor."

[In' Ferrovia em Trá-os-Montes' de António Jorge Nunes]



... A maioria do património foi votada ao abandono, a REFER vendeu os carris a um sucateiro, 
Manuel Godinho da "face oculta" (processo judicial), que iniciou a remoção pela estação de Duas Igrejas... 
O depósito de água da estação de Carviçais foi salvo da remoção para a sucata, pela intervenção do povo da aldeia, 
que através da Junta de Freguesia  o comprou.
 Todos os carris da linha do Sabor foram removidos no ano de 1999, sem que alguém tivesse travado tal atentado patrimonial, 
ou melhor dito de "roubo de bens públicos" entregues "a troco de nada".

In 'Ferrovia em Trás-os-Montes' de António Jorge Nunes

 

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Do livro 'Caçador de Locomotivas' de Ricardo Grilo

[Moncorvo em 1987 / Alstom 9022 - Foto de Ricardo Grilo]

[In 'Caçador de Locomotivas' de Ricardo Grilo]


Ricardo Grilo, profissional da comunicação social, com áreas de interesse pela escrita, investigação, fotografia, ... e apaixonado por histórias dos séculos XIX e XX, aviação, caminhos de ferro e automobilismo..., com este livro, na história 'Uma noite em Moncorvo', recorda e ajuda a eternizar como foram os últimos dias da linha do Sabor e refere o seu habitual e último maquinista, Abílio Carvalho de Carviçais, que no dia 1 de Agosto de 1988 conduziu o último comboio com a Alsthom 9001 - 'Espanhola'.


 

Ponte do Pocinho

[Gazeta CNF 371 de 1Junho1903]

[Gazeta CNF 376 de 16Agosto1903]

... e a ponte foi efectivamente a porta de comunicação para o Nordeste Transmontano


[Fotos de Autores desconhecidos]

Mas quase tudo na vida é feito de ciclos, cada um deles com princípio, meio e fim... 
e a Ponte Rodo-Ferroviária do Pocinho não foi excepção apesar de ser uma bela obra de engenharia do ínicio do século XX.
















[Estação do Pocinho, CP E41 na década de 70 / Foto autor desconhecido]



 

[Estação de Vilar do Rei / Foto Autor desconhecido]

"Resguardo-me às investidas do esquecimento, ao apodrecer das lembranças que sustêm ainda o último grito do silêncio do meu abandono. 
Abrigo-me nos corpos molhados que procuram o calor de outros corpos, no frio do ferro e na textura de uma teia, que a aranha faz numa tentativa vã de capturar o tempo.
Esqueci já o som da chuva em mim, guardo apenas o sorriso incontido dos olhares ariscos de homens de palmo e meio, perscrutando o ocre do que tenho, para assim verem as estrelas do que fui."

[In 'Alma Tua' de Miguel Gomes]



 

[Estação de Duas Igrejas - CP E181 / Foto de Marc Dahlstrom, 1977]
 



[Estação do Pocinho - CP E41 - Anos 70 / Foto de Tony Bowles]
Na entrada da locomotiva o saudoso maquinista Abílio Carvalho, o eterno 'Apita Abílio'.

O maquinista

"... Na parte final da hierarquia das locomotivas, está colocado o maquinista. Este é o verdadeiro intérprete das marchas dos combóios. Sem a sua formatura no conhecimento da ciências das máquinas a vapor, não seria possível o progresso das grandes velocidades... São os rígidos regulamentos de sinalização, o conhecimento prático do caminho a percorrer,  a constante preocupação das marchas certas e o mais possível económicas, os cuidados da segurança dos combóios e, sobretudo, a tremenda responsabilidade das vidas que se lhe entregam confiadamente.
No maquinista estão os olhos, o cérebro e o guia da locomotiva... As observações rigorosas nas marchas a efectuar, os obstáculos a prever ou a remediar, as insónias exigidas pelos deveres do seu ofício, a chefia disciplinada e disciplinadora a exercer no todo da vida das locomotivas e, como agente a quem não se tolera a mínima distração, ele é o primeiro funcionário ferroviário que enfrenta as maiores responsabilidades na condução das vidas alheias. As noites tempestuosas, o frio, o calor, as desoras de toda uma vida, a incerteza e a intranquilidade, são apanágios do labor ferroviário que a ele mais afetam... ele passa desapercebido... não é mais do que um indivíduo a confundir-se no carvão negro e nos óleos, que sujam e enodoam todas as gangas do seu uniforme..."

[In 'Memórias Dum Ferroviário' de Pedro de Freitas]



 

 

['Escudo da Nação' - Painel azulejar da Estação de Urrós no Museu do Entroncamento / Foto de Edite Vaz]

O painel foi colocado durante a construção do troço Mogadouro/Miranda-Duas Igrejas,  inaugurado a 22 de Maio de 1938. 
Neste troço foram colocados paineis alusivos aos 'Caminhos de Ferro do Estado' em todas as estações.












 [Estação de Carviçais  - CP E209]